Consciência Negra

Os Nós da Mente

Neste espaço você irá ter um conteúdo onde vamos discutir temas que têm tudo a ver com a sua angústia. O divã será o blog e o psicanalista é o grupo de autores que vão escrever os artigos que irão abordar filmes, livros, músicas e o cotidiano, mas tudo ligado à saúde mental. Você irá perceber que não está sozinho. Vamos dar as mãos para caminharmos na jornada do autoconhecimento. Isso porque esse é um blog de psicanálise para você!

Consciência Negra
Consciência Negra
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Por Rodolfo Medina, Filósofo e Psicanalista - rdfmdn@hotmail.com

A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro (JESUS, 2014)

Entenderemos por consciência a percepção sobre algo, a construção do conhecimento acerca da temática estudada, percebida ou desenvolvida. Este processo pode ser feito de forma individual ou coletiva, mas sempre com intercâmbio entre pessoas. Ainda que busque a consciência sozinho ou sozinha, sempre haverá uma base social que ampara essa busca. Entender-se como sujeito é entender-se como tal na sociedade em que se vive.

Poderíamos elucidar aqui diversas manifestações de preconceito que a nossa sociedade brasileira se pauta para tratar do povo negro. Todavia, nos atentaremos à construção do sujeito nesta sociedade, sob a óptica de vivência deste. Pedimos licença para tratar o tema a partir do olhar de um negro, que busca a sua consciência negra, e, ainda que sem a pretensão de esgotar a análise, apresentaremos a tentativa de responder as questões: quando aprende que és negro? Quando se sente negro? Quando se pertence negro? 

Quando criança, quais angústias se apresentam em seu viver? Quais acessos lhe foram negados? Quais atitudes lhes foram esperadas? 

Quando adolescente, e o início da puberdade, quais angústias apareceram? Com quem conversou a respeito? Algum atendimento lhe foi negado? Esperaram performances diferentes?

Quando da entrada no mercado de trabalho, quais os limites para tal? Quais possibilidades se fizeram concretas? Quantas negativas teve? Quais medos, alegrias, dificuldades e conquistas lhe ocorreram? 

Quando da vida adulta, a criação de filhos, quais exemplos lhe foram concedidos? Quais desafios enfrentou? Quais amparos e redes de apoio teve? Quais medos e dificuldades? Quais alegrias?

Quando da vida idosa, quais limites enfrentados? Quais caminhos se foram fazendo sem a sua vontade? Chegara aonde sonhou?

Muitas vezes a solidão da criança negra não é compreendida, porque ao falar de grupos identitários se tem no imaginário coletivo como algo homogêneo. Tantas vezes a insegurança na manifestação de seus cabelos crespos e na sua identidade religiosa não é aceita, porque apresenta-se padrões de existência contrários aos postos pela moral da sociedade vigente.

Desde muito cedo, desenvolvi aptidões para evitar a rejeição. Você precisa tirar nota boa, ter bom comportamento e boa aplicação, para evitar ser prejudicada e dominada pela expectativa de rejeição, diziam meus pais. Por que essa expectativa? Por causa da cor da pele. Só pode ter sido por isso. Eu não tive na minha experiência outro motivo (MAUNTER, 2000).

Na descoberta da sexualidade a cobrança pela virilidade e a importância que se dá ao tamanho de seu órgão sexual, ou a sua capacidade de ser fogosa, limitam as demais possibilidades de descobertas que esta fase possibilita. Na ânsia por responder a essa colocação social, o desenvolvimento pode gerar sofrimento. E com quem partilhamos disso?

Inseguranças na busca pelo trabalho, pelo parceiro ou parceira, pelo posicionamento em determinadas situações, e até mesmo a insegurança de buscar seus sonhos, podem ser resultado de violências de raça sofridas. 

A pobreza é muitas vezes usada como desculpa para não alcançar projetos. Mas a pobreza é algo individual ou uma construção social? Será que pode haver raízes no racismo que sofreu? Será uma pobreza estrutural?

Quanto mais subimos nas classes sociais, tanto mais aumenta a consciência de cor e tanto maior o esforço despendido para compensar o sentimento de inferioridade. Ao mesmo tempo em que se empenham em desenvolver valores pessoais, para eliminar a concepção desfavorável, procuram a autoafirmação na conquista da aceitação incondicional por parte do branco. Consequentemente resulta uma luta por status social mais árdua, dadas as barreiras das distâncias sociais na linha de cor (Bicudo, 2010). 

E quando procura auxílio, quantas vezes lhe foi negado? Como conviver com a contradição da responsabilização do sujeito e a negação do cuidado, em uma sociedade extremamente patologizada? Como conviver com a angústia do abandono nas filas dos hospitais e lidar com a responsabilização de suas necessidades de saúde?

E quantos sonhos são guardados nas gavetas mais profundas, abandonados no esquecimento? Acreditar que és capaz, sentir-se capaz, ter a possibilidade de manifestar seus interesses e desejos...

Nesta busca por conscientizar-se enquanto negro e negra, muitas dessas questões perpassam nossa vida. Talvez não tenhamos as respostas, pois talvez ainda precisemos perguntar, e questionar, e se provocar, e analisar. E que neste dia, lembremos de buscar a nossa consciência negra.

O colonizado, portanto, descobre que sua vida, sua respiração, as batidas de seu coração são as mesmas que as do colono. Descobre que a pele do colono não vale mais que a pele do nativo - (FANON, 2022).

Quando aprende que és negro? Quando se sente negro? Quando se pertence negro?

Branco, se você soubesse o valor que o preto tem, tu tomava banho de piche e ficava preto também - Gilberto Gil.

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BICUDO, Virgínia L. Atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo. Edição organizada por MAIO, Marcos C. São Paulo, Sociologia e Política, 2010.

FANON, Frantz. Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.

GIL, Gilberto. Ilê Ayê. Álbum Rafavela, 1977.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada. São Paulo: Ática, 2014.

MAUNTER, Anna Veronica. Fui buscar defesas para o íntimo. Folha de São Paulo, 6 de outubro de 2000. Disponível em <https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0610200018.htm> Acesso em 16/11/23.