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Deathloop e a quebra de ciclos temporais

Bethesda e Arkane lançam um dos melhores e mais complexo shooter do ano

Eddy Venino - Equipe BANDx 14/09/2021 • 13:03
Divulgação
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Arkane Studios

Deathloop é uma grata surpresa. Eu estava ansioso pelo título, mas não imaginei o que ele despertaria em mim.

Ele é um jogo de tiro em primeira pessoa desenvolvido pela Arkane Studios (Dishonored, Prey) e publicado pela Bethesda. O curioso é que o game é exclusivo para Playstation 5 (nos consoles), mas desde março deste ano a Bethesda e seus títulos são de propriedade da Microsoft, dona do Xbox. Deathloop e Ghostwire: Tokyo serão os últimos jogos exclusivos para o console da Sony. Mas isso não é importante.

A Arkane vem realizando um trabalho consistente com seus jogos, e Deathloop, além de tirar o FPS de seu lugar comum, também me fez refletir sobre alguns aspectos recentes que foram abordados pela cultura pop no geral: a negritude e a física quântica.

A Bethesda concedeu uma cópia antecipada do jogo (PC) para que eu pudesse experienciar Deathloop e trouxesse meu ponto de vista sobre o jogo. Então, bora embarcar nesse embate entre assassinos presos num looping temporal.

Quem conta um conto aumenta um ponto

Colt acorda numa praia, ainda de ressaca da noite anterior. Não sabe o que estava fazendo ali e nem quem é. “Vozes” em sua cabeça começam a indicar uma direção a seguir, o que pegar, fazer e o que questionar. Assim ele descobre seu nome e que está sendo perseguido. Então, Julianna entra em contato através do Hackamajig, uma espécie de "walkie-talkie", que além de possibilitar as conversas entre Colt e sua algoz, também é um aparelho capaz de hackear outros dispositivos e se torna uma das ferramentas que você mais utiliza no jogo.

Nosso protagonista descobre que está preso em um looping temporal numa ilha chamada Blackreef. O local está sob o domínio dos Visionários, um grupo de oito pessoas que mantém o ciclo temporal intacto. Esse ciclo dura um dia e é mantido seguro graças ao empenho e interesse dos Visionários em isolar Blackreef do restante do mundo e tornar o local o seu parque de diversões. Alguns deles querem festejar; experimentar a morte sem consequências; outros estão interessados em estudar os efeitos da anomalia que os prende nesse ciclo, o Residiuum. Mas Colt quer se livrar disso e seu papel dentro jogo é achar um jeito de quebrar o looping temporal. Mas, além dos Visionários, você tem que combater o exército que serve a eles; tentar entender quem é você, de quem são as vozes em sua cabeça e, principalmente, escapar de Julianna, sua maior opositora dentro do game. E este é outro ponto interessante de Deathloop, porque a Julianna pode ser controlada por outros jogadores, invadindo sua sessão e tentando te eliminar.

 

Mas isso aqui tá bem quadrado, né? Quer dizer, se você veio aqui esperando uma “review de jogo” tradicional, podia até estar achando normal. Mas quem me acompanha já sabe, vem mais coisa por aí ;)

Volta o cão arrependido, com suas orelhas tão fartas…

Tá, ainda vou citar alguns pontos “técnicos” do jogo, ok? Mas só porque eles vão me levar na direção que quero chegar.

Deathloop te coloca em um cenário “pequeno”. A ilha de Blackreef tem quatro localizações que podem ser visitadas em quatro períodos diferentes do dia: manhã, meio-dia, tarde e noite. Elas são chamadas de distrito e os Visionários - que você, leitor esperto, já sacou que são os chefes - estão espalhados por essas localizações. O desafio em Deathloop é você coletar pistas nesses distritos e descobrir quando esses chefes estarão reunidos.

E a cada visita aos distritos, em horários diferentes do dia, você pode ver variações no cenário, personagens com diálogos diferentes e ações únicas para cada ciclo. Fora que você pode aproveitar o visual retrofuturista adotado pelo jogo em sua plenitude.

Mas porque você deve fazer isso? Bem, cada vez que você acessa um dos distritos o dia avança, começamos pela manhã e a cada visita um período do dia passa. Então, a cada ciclo, temos quatro chances de eliminar os Visionários. 

Ué, mas eles são oito! Como vou fazer isso com apenas quatro chances? Bem, é aqui que entra a exploração e descoberta. A cada nova visita que você faz aos distritos, acaba descobrindo novas pistas que podem te indicar onde mais de um deles se reúnem ao mesmo tempo. Com isso você vai traçar um plano para executar os oito Visionários em apenas um ciclo. Porque se não o fizer, tudo reseta no “próximo” dia e todos voltam a vida. Looping temporal, lembra?

Mas o divertido aqui é explorar todas as possibilidades que o jogo oferece. Os cenários, apesar de serem mais enxutos, são bem estruturados, permitindo abordagens em stealth ou no “estilo Rambo”. O jogo te oferece dois ou três caminhos para o mesmo local, além de passagens secretas e com isso você escolhe a melhor abordagem.

Outro ponto que queria abordar são as habilidades de Colt e das armas. Em Deathloop elas estão diretamente ligadas a narrativa do jogo. O Residiuum, que é essa energia residual da anomalia temporal que gera o ciclo, é utilizada pelos habitantes de Blackreef para imbuir armas e a si mesmos com habilidades extraordinárias. Então, as modificações que tornam suas armas mais velozes ou potentes e te dão salto duplo, invisibilidade e teletransporte são todas provindas desta intervenção temporal. São muitas variações que você pode montar, tanto de armas quanto de habilidades. 

E é aqui que a minha brincadeira com Colt fica interessante!

Buraco Negro

Sou de humanas, jamais serei de exatas. Sempre me interessei por cálculos e aplicações lógicas, mas percebi com o tempo que isso não era pra mim. Minha caminhada é contar histórias. E hoje, com Deathloop, isso resvala em exatas. Mais especificamente em física quântica.

Quando obras de cultura pop interagem com as possibilidades criadas pelos campos teóricos da matemática, química e física, geralmente acabam criando certas incongruências. Mas é justamente aí que temos obras memoráveis, como Breaking Bad, Control, Star Trek, Quarteto Fantástico (as HQs, não os filmes), entre tantas outras.

Deathloop lida com looping temporal e apresenta um protagonista negro e uma antagonista negra, ambos carismáticos. E isso me fez lembrar de uma cena específica de MIB: Homens de Preto, quando o futuro agente J (Will Smith), dá um tiro numa garotinha de papelão, que estava sozinha nas ruas, segurando um livro de física quântica e diz:

“Uma garotinha, no meio da noite com um livro de física quântica? Ela estava planejando alguma merda, Zed.”

Isso foi o clique para que eu pensasse nas recentes obras que incluiam negros e lidavam com questões relacionadas a tempo e espaço. O próprio MIB, em seu terceiro filme, tem viagem no tempo - uma ótima trilogia de filmes, em minha humilde opinião.

Mas esses não são casos isolados. Recentemente tivemos Homem-Aranha no Aranhaverso, onde Miles Morales lida com seus novos poderes de aranha e com todas versões de mundos paralelos do Homem-Aranha; A Torre Negra, que é protagonizada por Idris Elba e adapta a série de livros de mesmo nome de Stephen King, que lida com o próprio “multiverso” criado pelo autor; Interestelar e sua infame cena, onde David Gyasi explica a Matthew McConaughey como um burcado de minhoca funciona; e pra mim a mais recente e marcante que é Lovecraft Country, onde temos um elenco negro fortíssimo e mundos paralelos colidindo e tendo influência na linha temporal das personagens.

Deixo aqui a minha indicação para que leiam o texto de José Evaristo S. Netto sobre racismo e realidade simulada (Matrix), onde ele aborda física quântica e psicologia negra através dos estudos de Sakhu Sheti.

Deathloop se junta a essas obras e acrescenta mais uma história protagonizada por um negro. Um jogo de peso e com a assinatura da Arkane, que é um excelente estúdio. Tudo isso sem alarde, naturalizando vozes negras na cultura pop em histórias que não abordam apenas questões raciais.  

Enxergo essas representações em obras que lidam com mundos paralelos, viagens no tempo e looping temporal como uma abordagem indireta sobre as situações que nós, negros, lidamos todos os dias. Queremos sair desse “buraco negro” e criar nossos próprios espaços, nossos mundos, algo que nos represente. E seja por aceitação ou um apelo forte do mercado, as minorias têm ganhado seu merecido espaço. A cada nova obra tratada com a excelência que é atribuída a Deathloop - e as demais citadas acima - nos aproximamos mais um pouco do ponto de integração que é necessário para que tudo seja normalizado e nossos corpos, cultura e vivências sejam cada vez mais respeitados.

Porque vivemos num looping temporal de ignorância e temos que quebrar isso. Jogos, filmes, música e o entretenimento em geral têm um importante papel nessa caminhada. E quando você cria um shooter como Deathloop, que reúne tantos elementos, como ambientação, narrativa, gunfight apurado e uma proposta bem executada, você tem um dos jogos que serão destaques em 2021 e que protogonizado por um negro. Infelizmente o jogo chega apenas para o PS5 e PC (pelo menos a princípio), limitando o número de pessoas que poderiam experimentar essa obra, que pra mim é um dos melhores shooters single player dos últimos anos ao lado DOOM Eternal. Que por acaso é da Bethesda também, né!

Por último, queria deixar aqui o comentário do meu filho, que me assistiu jogando Deathloop para criação desse texto:

“Pai, ele é parecido com você.” - se referindo ao Colt, o protagonista. Joguinhos são sobre isso ^^

Deathloop está disponível com localização e dublagem em português para Playstation 5 e PC via Steam.

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