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Sobre o autor

Mariana Mazza, A jornalista Mariana Mazza, especialista em telecomunicações, traduz, explica e comenta um dos setores que mais cresce no Brasil, mas que ainda se mantém tão distante dos consumidores. Há 10 anos acompanhando o setor de infraestrutura, Mariana Mazza, iniciou carreira na Anatel, mas logo mudou de lado do balcão e passou a se dedicar à cobertura do segmento no grupo Gazeta Mercantil, escrevendo para a Agência InvestNews e para os jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil. De lá, seguiu para o Correio Braziliense, onde, além da cobertura das telecomunicações, continuo acompanhando os diversos setores da infraestrutura brasileira, como energia, transportes e aviação. Voltou às origens ao reforçar a equipe do noticiário especializado Teletime News/Telaviva News, onde passou a se dedicar exclusivamente à apuração dos meandros dos serviços de telefonia, TV por assinatura, banda larga e televisão no Brasil. Atualmente é editora nacional da Band em Brasília e comentarista da BandNews e da Rádio Bandeirantes.

por: Mariana Mazza

15/08/2013 22:14

O que é supérfluo?


"Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia." A célebre frase do escritor britânico Arthur C. Clarke descreve muito bem como nos relacionamos com a tecnologia. É raro conseguirmos enxergar a complexidade envolvida por trás dos serviços altamente tecnológicos que temos acesso hoje. Escolhemos um nome em nossos celulares e (se a operadora colaborar) lá está a outra pessoa conversando conosco. Ligamos nossos computadores e damos a volta ao mundo com poucos cliques. Ligamos a televisão e cada vez mais pessoas conseguem ter em casa dezenas de canais de outros países. Pura magia.


Não pensamos muito em como tudo isso funciona. E, na maior parte das vezes, nem temos motivo nos preocupar. É claro que tudo muda de figura quando a coisa falha. Essa dificuldade de enxergar para além da mágica dos serviços com base tecnológica faz com que importantes decisões com impacto em toda essa massa de consumidores conectados passem despercebidas. Estamos vivendo um desses momentos.


Nesta semana, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou a venda da empresa Globenet para o grupo BTG Pactual em um negócio de R$ 1,745 bilhão. Mas quem é essa tal de Globenet? Este é o nome fantasia da Brasil Telecom Cabos Submarinos (BTCS), empresa responsável por operar uma rede de 22 mil km em cabos submarinos interligando Brasil, Estados Unidos, Colômbia, Venezuela e Bermudas. Desde que adquiriu a Brasil Telecom, em 2008, essa rede é operada pela Oi.


A Oi decidiu vender essa empresa dentro da estratégia de capitalizar a companhia, que luta para equilibrar suas contas. Nas palavras dos representantes da Oi ao Cade, a proposta é "concentrar seus investimentos e esforços nas suas atividades principais, alienando ativos ou participações que não estejam a elas diretamente relacionados". É verdade que o principal negócio da companhia é a prestação de serviços diretos ao consumidor. E o preço obtivo pela companhia é bastante animador. Quando a Globenet foi adquirida pela Brasil Telecom em 2003, o negócio custou US$ 46 milhões, pouco mais de R$ 100 milhões à época. O valor obtido na venda é quase 1.800% maior. Não há dúvidas de que foi um bom negócio no campo financeiro. Para o setor de telecomunicações, nem tanto.


Esta previsto desde o início das negociações que a Oi irá seguir alugando a rede agora controlada pelo BTG Pactual. Sendo assim, os serviços oferecidos pela companhia que precisam dos cabos vendidos não devem ser afetados. Mas em tempos de espionagem norte-americana nas redes de telecomunicações e debates sobre mudanças no Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) e no Marco Civil da Internet é uma pena que as redes de cabos submarinos não sejam vistas como prioridade.


Apesar de antiga – as primeiras redes submarinas surgiram ainda no século XIX –, essa infraestrutura ainda é fundamental para o fluxo de informações de voz, dados e sinais de TV. Na verdade, essas redes se tornaram ainda mais importantes no século XXI com o intenso tráfego de informações entre continentes. Os cabos submarinos servem para interligar os países, garantindo o trânsito de informações em alta capacidade por todo o globo terrestre. Para se ter uma ideia da importância dessas redes hoje em dia, quando circularam as denúncias de que a agência norte-americana de segurança, NSA, estava espionando os cidadãos brasileiros, o primeiro alvo do ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi a rede de cabos submarinos. Por ter dimensão mundial, Bernardo suspeitou imediatamente que as informações tinham sido obtidas pelo governo dos Estados Unidos por meio dessas redes. Também não custa lembrar que uma das medidas anunciadas pelo governo para garantir a segurança dos dados trafegados no Brasil foi justamente a construção de um novo cabo submarino em parceria com a Angola.


Para além das questões de segurança, o fato de uma empresa de telecomunicações ter que abrir mão de sua rede de cabos submarinos é lamentável também para o próprio setor e para os consumidores. A expansão da banda larga no país e a modernização das redes de telefonia estão intimamente ligadas à capacidade dessa infraestrutura submarina. Tanto é assim, que a primeira condicionante imposta pela Anatel para que a Oi pudesse comprar a Brasil Telecom envolvia justamente uma atualização na rede da Globenet com a intenção de garantir o aumento das sedes municipais ligadas com fibra óptica.


A importância desses cabos para os consumidores de serviços de telecomunicações, especialmente os de banda larga, fica evidente quando ocorre um problema nessas redes. No início de 2013, o rompimento de um cabo localizado em Santos deixou os clientes da GVT sem acesso a sites internacionais por horas. Problema semelhante em um cabo em Fortaleza interrompeu a conexão de clientes da Embratel e da Net em 2011. Um dos casos mais críticos aconteceu em 2008 quando cabos submarinos administrados pela France Telecom se romperam duas vezes em menos de um mês causando problemas nas comunicações entre Europa, Ásia e Oriente Médio por dias.


O impacto dessas falhas mostra como os serviços de Internet precisam dramaticamente dessa rede de cabos para funcionar. E é por meio da atualização dessa infraestrutura que garantiremos que a banda larga se expanda no país com qualidade. Para se ter ideia do tamanho de uma rede dessas, basta dizer que o maior sistema no qual o Brasil está ligado, o SAM-1, tem uma capacidade de transmissão de até 10,8 terabits por segundo. Hoje, essa rede de cabos, administrada pela Telefónica Internacional, utiliza pouco mais de 10% dessa capacidade para circular informações entre nove países nas Américas, incluindo o Brasil, e a Europa. Ou seja, o uso dessas redes ainda pode (e deve) aumentar muito nos próximos anos para acompanhar o crescimento do volume de dados trafegado todos os dias no mundo. Por ora, os cabos submarinos ainda são o coração da operação de dados no planeta.


Sendo assim, fica a dúvida: é possível considerar uma rede dessas supérflua? É óbvio que a Oi teve que fazer escolhas dolorosas nesse momento em que está reordenando suas contas. Mas realmente é uma pena ver uma empresa de telecomunicações tendo que abrir mão de uma rede tão importante para o avanço dos serviços. Não é à toa que a maioria dessas redes de cabos submarinos é controlada por companhias telefônicas. Ninguém melhor do que as teles para saberem o momento certo para aumentar a capacidade dessa infraestrutura em sintonia com o crescimento da oferta de serviços. Por mais que o negócio não afete a concorrência – e, por isso, foi aprovado pelo Cade – transferir esse patrimônio para um banco de investimentos é uma oportunidade perdida em um momento em que discutimos tanto a necessidade de mais segurança nas redes e a expansão dos serviços de banda larga no país. Só nos resta torcer para que esse movimento, na contramão da expansão dos serviços de banda larga, não faça com que a magia acabe.