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Tendo como base a sprint race, o que podemos esperar da corrida deste domingo

Livio Oricchio 13/11/2021 • 20:16
Bottas venceu a sprint race em Interlagos - Twitter Valtteri Bottas
Bottas venceu a sprint race em Interlagos - Twitter Valtteri Bottas

A sprint race do GP de São Paulo de F1, disputada neste sábado (13) em Interlagos, deixou várias lições importantes para os 20 pilotos das 10 equipes que vão disputar a corrida principal do fim de semana, neste domingo, com largada às 14 horas.

Valtteri Bottas, da Mercedes, venceu, com Max Verstappen, Red Bull-Honda, em segundo, e Carlos Sainz Júnior, Ferrari, terceiro. Eles receberam, respectivamente, 3, 2 e 1 ponto.

Vamos conversar sobre alguns ensinamentos da corrida?

Ficou claro para o líder do mundial, Max, que Lewis Hamilton, da Mercedes, segundo na classificação, terá chances de lutar pelo pódio neste domingo, apesar de largar em décimo. O inglês começou a sprint race na 20ª colocação e ao longo das 24 voltas realizou 15 ultrapassagens para receber a bandeirada em quinto, sem cometer um único erro.

É sete vezes campeão do mundo e luta pelo oitavo título como se fosse o primeiro. É mesmo um dos mais completos de todos os tempos na F1, como os números também atestam. Não desiste nunca. Dá sempre o máximo de si, com seu talento raríssimo.

Hamilton largou em último em razão de os comissários detectarem uma irregularidade no seu flap móvel (DRS). Abria mais dos 85 mm permitidos. Já Max recebeu apenas uma multa de 50 mil euros, ou R$ 320 mil, por ter tocado no aerofólio traseiro do W12 de Hamilton depois da classificação, nesta sexta-feira.

E na prova deste domingo Hamilton perderá cinco posições no grid por causa da troca do motor de combustão interna (ICE) da sua unidade motriz, a quinta da temporada, duas a mais do permitido. Como foi quinto na sprint race, com a punição Hamilton começa o GP de São Paulo na décima posição do grid.

Existe ainda a chance de a Mercedes decidir substituir todos os seis elementos da unidade motriz, já que Hamilton e seu time viram que mesmo largando lá atrás é possível crescer na corrida nos 4.309 metros da pista de Interlagos. Há como ultrapassar na freada do S do Senna e na do Lago, no fim da Reta Oposta, principalmente.

Isso daria a Hamilton uma unidade motriz completamente nova para as 71 voltas da corrida desde domingo e os três GPs finais do calendário: Qatar, já no próximo fim de semana, Arábia Saudita, dia 5 de dezembro, e Abu Dhabi, 12. Logo saberemos se o grupo de engenheiros liderado por Peter Bonnington decidirá pela troca da unidade motriz completa.

Otimismo moderado

Mencionei Max, no início, porque é provável que ele, seu engenheiro, Gianpiero Lambiase, e o diretor da Red Bull-Honda, Christian Horner, estivessem bem animados para aumentar de forma significativa a diferença para Hamilton na classificação do campeonato, já que o adversário começará a corrida, neste domingo, no mínimo na quinta fila. Hoje é de 21 pontos, 314,5 a 293,5.

A luta entre seus times é da mesma forma ponto a ponto. A Mercedes lidera com 2 pontos a mais, apenas, depois de 19 etapas e a sprint race de São Paulo: 481,5 a 479,5.

Pode até acontecer de Max somar bem mais pontos que o concorrente, mas ficou evidente que Hamilton dispõe de um conjunto chassi-unidade motriz dos mais eficientes em Interlagos. E pode não ser fácil para o holandês ultrapassar Bottas. O primeiro lugar na sprint race deu o direito ao finlandês de largar na pole position neste domingo, com Max em segundo. Max tem a chance de dar o troco.

Na sprint race largou em primeiro, com Bottas em segundo. Mas o piloto da Mercedes largou melhor, assumiu a liderança antes ainda do S do Senna e a manteve até o fim.

Bottas não vai tirar o pé

Max e Lambiase entenderam a importância de neste domingo sair do S do Senna na frente de Bottas. Mais: tudo com muito cuidado. O piloto da Mercedes deve ter sido orientado a literalmente não facilitar nada. Quer me ultrapassar? Assuma os riscos. Bottas não tem nada a perder. Max, tudo.

Um toque acidental com Bottas, na largada, na luta pelo primeiro lugar, possivelmente permitiria a Hamilton aproximar-se bastante e reduzir o prejuízo de largar em décimo ou mesmo em último, se a Mercedes for mais radical e substituir tudo.

Quanto à ajuda do companheiro de equipe, Bottas parece bem mais competitivo que Sérgio Perez, o parceiro de Max. O mexicano perdeu a terceira colocação no grid para o combativo Sainz na largada, mesmo com o espanhol tendo largado duas posições atrás.

Mesmo dispondo de um carro mais rápido e com o uso do DRS, Perez não conseguiu reassumir a terceira colocação, terminou em quarto. E serão nessas posições que começam a corrida neste domingo. Max tem de ultrapassar Bottas, enquanto Perez, Sainz. Ambos vão dispor, agora, de mais das 24 voltas da sprint race, mas 71 da corrida, como mencionado.

Perez também não demonstrou força para tornar a vida de Hamilton mais difícil, pois com certeza o piloto inglês virá com tudo para cima dele, largue em décimo ou em 20º. Na etapa de Budapeste, a vitória de Steban Ocon, da Alpine, foi possível porque seu companheiro, Fernando Alonso, segurou bom tempo, dentro das regras, Hamilton atrás de si.

Em primeiro lugar, Interlagos não é o Circuito Hungaroring, de reta curta, e Perez não tem a mesma competência de Alonso. No GP de São Paulo, pelo que vimos até agora, Hamilton pode esperar muito mais de Bottas do que Max de Perez.

Estratégias distintas

Vi que Max conseguiu chegar de vez em Bottas na 14ª volta, quando a diferença entre ambos caiu para 7 décimos de segundo, permitindo o uso do DRS. Mesmo assim, Max não conseguiu colocar seu RB16B-Honda ao lado do W12 de Bottas. Uma das razões dessa aproximação foi o finlandês estar com pneus macios e Max, médios. Os pneus macios do piloto da Mercedes já não respondiam como antes. Os médios de Max estavam mais inteiros.

Aliás, um dos motivos de Max perder o primeiro lugar na largada foi exatamente esse, Bottas tracionou melhor com os pneus macios diante de Max, com os médios.

Nos GPs em que há o sprint race aos sábados, Grã-Bretanha, Itália e São Paulo, não há obrigatoriedade de os pilotos começarem a corrida do domingo com os mesmos pneus usados no Q2, na sexta-feira, treino classificatório para definir o grid da sprint race. Cada piloto pode escolher o pneu que desejar para começar a prova.

Isso abre a perspectiva de as equipes adotarem estratégias bem distintas. Deverão levar em conta o desgaste verificado na sprint race, nos treinos livres e a esperada elevação da temperatura, em Interlagos. Durante a sprint race, não passou de 18 graus, enquanto que para este domingo a estimativa é de 24 graus.

Mais emoções

Acredito que a corrida deste domingo deva ter bem mais alterações de cenário do que a sprint race. Como já escrevi, o custo benefício dessa competição para os pilotos e suas equipes é pequeno. Os três primeiros recebem pontos, poucos pontos, enquanto os demais somente eventual avanço na ordem do grid se ultrapassarem os adversários.

As severas restrições do limite de orçamento e as consequências de um acidente, também para a prova do dia seguinte, têm peso muito maior do que ganhar uma ou duas posições no grid, a relação estímulo/recompensa é pequena.

Por isso não assistimos a disputas árduas, combates roda a roda, como têm ocorrido este ano, nos três pelotões das provas. No primeiro, onde estão Red Bull e Mercedes, no segundo, Ferrari e McLaren, e o terceiro, Alpine, Alpha Tauri, Aston Martin e Williams. E mesmo entre os pilotos da Haas, Mick Schumacher e Nikita Mazepin.

É o que podemos esperar da corrida deste domingo, para um público no autódromo espetacular. O resultado está completamente aberto.

Abraços.

Livio Oricchio

Livio Oricchio é um jornalista brasileiro e italiano, especializado em automobilismo, notadamente a F1, e em outra de suas paixões, a divulgação científica. Cobriu a F1 para o Grupo Estado de 1994 a 2013 e então para o GloboEsporte.com até 2019. Residiu em Nice, na França, durante boa parte da carreira, iniciada na F1 ainda em 1987. Colabora, desde então, com publicações de diversos países. Tem no currículo a presença em quase 500 GPs. Em boa parte desse espaço de tempo também foi repórter e comentarista de F1 das rádios Jovem Pan, Bandeirantes e Globo. Em 2012 ganhou a mais prestigiosa premiação da área, o Troféu Lorenzo Bandini, recebida em cerimônia na Itália.