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Minha aposta: Red Bull-Honda escondeu o jogo até o Q1. Mas as chances de título de Max e Hamilton são iguais

Livio Oricchio 11/12/2021 • 20:59
Hamilton e Verstappen em Abu Dhabi - FIA/Handout via Reuters
Hamilton e Verstappen em Abu Dhabi - FIA/Handout via Reuters

Olá, amigos.

São raras as ocasiões em que não vejo os resultados na F1 como o fruto do desenvolvimento natural da competição. Jogos de cena, tentativas de iludir o adversário são recursos utilizados bem poucas vezes pelas equipes. Mas não são poucos os que veem teoria conspiratória em quase tudo. Definitivamente não faço parte desse grupo.

Mas confesso que no caso do GP de Abu Dhabi, neste fim de semana, não hesito em afirmar que os líderes da Red Bull-Honda, Adrian Newey, diretor da área técnica, e Christian Horner, diretor geral, dentre outros, claro, planejaram passar uma ideia, inicialmente, de o carro de seu piloto, Max Verstappen, não ter performance para acompanhar o de Lewis Hamilton, da Mercedes.

E quando foi a hora da verdade, a definição do grid, Max demonstrou o que o modelo RB16B-Honda, equipado com os pneus mais macios da Pirelli, o C5, pode fazer no novo traçado de 5.281 metros, 16 curvas. A ponto de Hamilton, depois da classificação, dizer: “Não era possível competir hoje com o tempo deles”. Max vai largar na pole position e Hamilton, em segundo.

É provável que o concorrente de Max ao título não esperasse desempenho tão extremo da escuderia austríaca. No treino livre da manhã, neste sábado, Hamilton foi 214 milésimos melhor que Max, ambos com pneus macios. E no Q1, a primeira parte da definição do grid, com os dois de macios também, o piloto da Mercedes obteve um tempo 477 milésimos melhor que o de Max.

Poucos acreditaram que a pole não ficaria com Hamilton. Onde Max e a Red Bull-Honda iriam buscar o meio segundo que o adversário lhes impôs?

Só que poucos minutos mais tarde, com o primeiro jogo de pneus macios do Q3, Max estabeleceu 1min22s109, o melhor tempo do fim de semana e recorde da nova pista. Hamilton, 1min22s660. Ou seja, o holandês não apenas recuperou o meio segundo de vantagem de Hamilton como lhe aplicou um tempo meio segundo, 551 milésimos, melhor. Em outras palavras, avançou um segundo!

Resultado conclusivo

O regulamento não permite mudanças importantes no ajuste do carro durante a sessão de classificação, bem como não há tempo para nada. Isso quer dizer o quê, por favor? Que o real potencial do modelo RB16B-Honda de Max estava lá, guardado, quieto. E no momento oportuno o demonstrou a Hamilton e ao diretor da Mercedes, Toto Wolff.

Como? Há várias maneiras. A primeira é limitar a potência da unidade motriz, facilmente de se obter com um simples toque em um botão no volante. Outra é liberar os pilotos com mais gasolina da necessária para a volta de aquecimento dos pneus, a lançada e a de reentrada nos boxes. Nessa pista, 10 quilos a mais de gasolina implicam a perda de algo como quatro décimos de segundo no tempo de volta.

Com o segundo jogo de macios no Q3, Hamilton recorreu ao seu arsenal inesgotável de recursos de piloto para diminuir a diferença para Max de 551 milésimos para 371 milésimos.

Em resumo, Max sabe dispor de um conjunto chassi-unidade motriz bastante eficiente para as 58 voltas da corrida, neste domingo. Já na sexta-feira, nos dois treinos livres, enquanto Hamilton obtinha melhores tempos em uma volta lançada, Max registrava séries de voltas com performance melhor que a de Hamilton. Era a simulação de corrida.

Não há favoritos

Esse cenário não faz de Max o favorito para vencer o GP de Abu Dhabi, 22ª e último do calendário, e celebrar a conquista do seu primeiro título mundial. Você sabe, ele e Hamilton estão empatados com 369,5 pontos, mas o piloto da Mercedes obteve uma vitória a menos no ano, 8 a 9. Portanto, o líder do campeonato é Max. Se os dois não marcarem pontos no Circuito Yas Marina, o mundial fica com o holandês.

Há uma importante e decisiva variável em jogo neste domingo, até porque Max e Hamilton ainda não compartilharam a primeira fila do grid usando pneus diferentes. No GP de Abu Dhabi, Max começa com os macios enquanto Hamilton, médios.

O fato foi lembrado por Hamilton depois de afirmar não ter como acompanhar o ritmo de Max na classificação: “Eu ainda estou na primeira fila e confio que a nossa estratégia seja a mais indicada”.

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Com pneus macios, Max tende a tracionar melhor o carro e manter-se em primeiro depois da largada. E seu companheiro de Red Bull-Honda, Sérgio Perez, quarto no grid, tem a chance, ainda, de tentar ganhar o segundo lugar de Hamilton, pois também usou os pneus macios no Q2, neste sábado. Se isso acontecer, pode ajudar Max, que deverá fazer seu pit stop antes de Hamilton.

Valtteri Bottas, companheiro de Hamilton, não foi além do sexto lugar na definição do grid. Também larga com médios. Na sua frente estão Lando Norris, McLaren-Mercedes, terceiro, Perez, quarto, e Carlos Sainz Junior, Ferrari, quinto, os três com pneus macios.

Segundo a Pirelli, as duas estratégias levam, se nada de anormal ocorrer, a um tempo total de corrida bem próximo. Explico: Max largar com os macios, fazer um pit stop ao redor da 18ª volta, instalar os duros e seguir com eles até a bandeirada, na 58ª volta.

Já Hamilton, começa a prova com os médios, realiza a parada perto da 28ª volta e, com duros, também, completa as 30 voltas restantes.

Jogo de xadrez

O grupo de estrategistas da Red Bull, liderado pela engenheira Hannah Schimitz, acredita que Max mesmo parando antes mantenha-se na frente de Hamilton depois de ele fazer o seu pit stop. O inglês teria a vantagem de dispor de pneus duros, como Max, com cerca de 10 voltas a menos. Poderia ajudá-lo a um ataque nas voltas finais.

O interessante é que a estratégia original da equipe de Max era também usar os pneus macios no Q2, para largar com eles. Mas o piloto bloqueou os pneus médios em uma frenagem, destruindo aquele jogo, o que os obrigou a recorrer a um jogo de macios, estendendo a decisão, a seguir, para Perez.

Hamilton e Verstappen em Yas Marina - Kamran Jebreili/Reuters

Já os estrategistas da Mercedes, comandados por James Vowles, apostam que a maior autonomia permitida pelos pneus médios de Hamilton, na largada, o faça deixar os boxes à frente de Max e com menos voltas para completar até a 58ª.

Um safety car no primeiro terço de corrida ajudaria Max. Tanto Schimitz quando Vowles chamariam seus pilotos para o pit stop, o que extinguiria a vantagem de Hamilton poder completar menos voltas com os duros depois da parada.

Mario Isola, diretor da Pirelli, comentou que mesmo com a mudança no traçado, tornando-o mais rápido, o desgaste dos pneus não é elevado, por essa razão a estratégia de um único pit stop é ainda possível e a mais rápida.

Considere, também, que as temperaturas, tanto ambiente quanto do asfalto, não são elevadas – 27 e 29 graus Celsius neste sábado. Lembro que a maior parte da corrida se desenvolve com luz artificial, quando em geral há menos calor, colaborando para reduzir o estresse dos pneus.

Isso tudo pode levar algum piloto a tentar estender o uso dos pneus ao máximo para, dependendo das circunstâncias, realizar um segundo pit stop e sair com pneus macios para uma série curta de voltas voadoras, o que seria emocionante com o título em jogo.

Nunca subestime a Mercedes

O mais legal dessa história toda é que a disputa está totalmente aberta. No fim da definição do grid a Red Bull-Honda demonstrou poder contar com um conjunto, aparentemente, mais rápido, mas já vimos cenário semelhante e depois, no domingo, quem deu as cartas foi a Mercedes, com Hamilton.

Repito o meu palpite de quinta-feira: vejo Max e Hamilton com 50% de chances cada um de serem campeões nesta que é uma edição épica do mundial de F1.

Ah, são tantas as medidas e os anúncios da FIA para evitar um fim de campeonato ilegal que não há como acreditar, agora, em um desfecho decepcionante para a disputa ponto a ponto entre esses dois gigantes, Max e Hamilton. Bom GP de Abu Dhabi para todos nós.

Abraços.

Livio Oricchio

Livio Oricchio é um jornalista brasileiro e italiano, especializado em automobilismo, notadamente a F1, e em outra de suas paixões, a divulgação científica. Cobriu a F1 para o Grupo Estado de 1994 a 2013 e então para o GloboEsporte.com até 2019. Residiu em Nice, na França, durante boa parte da carreira, iniciada na F1 ainda em 1987. Colabora, desde então, com publicações de diversos países. Tem no currículo a presença em quase 500 GPs. Em boa parte desse espaço de tempo também foi repórter e comentarista de F1 das rádios Jovem Pan, Bandeirantes e Globo. Em 2012 ganhou a mais prestigiosa premiação da área, o Troféu Lorenzo Bandini, recebida em cerimônia na Itália.