Blog do Datena
Notícias

"Pessoas ligadas ao presidente comemoram", diz Joice sobre possível atentado

Datena 23/07/2021 • 11:50
undefined

A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) disse nesta sexta-feira (23) em entrevista à Rádio Bandeirantes que algumas pessoas ligadas ao presidente Jair Bolsonaro estão comemorando o possível atentado que sofreu na madrugada do último sábado (17). A parlamentar ainda relatou uma série de ameaças que vem recebendo e indícios de invasões recentes em sua residência, mas preferiu não fazer acusações precipitadas a respeito do episódio.

"Nas redes sociais, muita gente ligada ao grupo do presidente da República está comemorando o que aconteceu. Estão dizendo que 'foi pouco', que eu deveria ter sido morta, que deviam ter quebrado minha coluna para eu não poder andar. É muito cruel como essas pessoas agem. Não todas, mas uma parte delas age de forma muito desumana. Parte da população perdeu a humanidade por fanatismo político."

Segundo seu depoimento, a última coisa que ela se lembra é de estar assistindo televisão em seu apartamento. Na manhã seguinte, acordou deitada no chão do corredor "com a cabeça em uma poça de sangue". Em um primeiro momento, achou que poderia ter sofrido um AVC ou um princípio de infarto, mas, ao realizar exames e passar por diversos médicos, observou que o grande número de fraturas graves era incompatível com apenas uma queda.

Joice sofreu cinco fraturas no rosto (sendo duas na região do nariz, duas no seio da face e uma no maxilar), uma na coluna e traumas no ombro, no joelho e na costela. No local havia relógios, brincos, anéis e outras joias, mas nada foi roubado.

"Eu gosto de 'maratonar' séries durante a noite. Agora Brasília está vazia, no meu prédio mesmo não tem ninguém por causa do recesso parlamentar. Eu aproveito esse período para ficar aqui e colocar o gabinete em dia, fazer coisas burocráticas. Estava assistindo TV e essa é a última coisa que lembro. Na sequência, no domingo de manhã, acordei com muito frio em uma poça de sangue no corredor entre meu quarto e o banheiro. Tentei me levantar e não consegui. Me arrastei para o banheiro e vi que tinha sangue espalhado para todo lado, no espelho, na pia, no tapete", detalhou.

A deputada conseguiu pegar o celular e telefonou para o marido, o neurocirurgião Daniel França, que dormia no quarto de hóspedes. "Quando ele ronca, coloco para fora", brincou. O médico, então, prestou os primeiros socorros e procurou colegas especialistas, incluindo o amigo Dr. Kalil e alguns dentistas, já que havia quebrado dois dentes.

"Meu marido pediu tomografias, fui fazer e o resultado foi assustador. O Dr. Kalil me ligou assustado e falou 'o que é isso?'. Era algo inimaginável. Conversei com médicos e tentamos fazer uma reconstituição. Não descarto nenhuma possibilidade. Não vou acusar quem já me ameaçou, seria irresponsável. Pode ser que eu tenha caído? Bom, seria um caso único na história. Os ferimentos não eram compatíveis com uma queda."  

Indícios de invasões

A suspeita de que tenha sofrido um atentado se torna mais concreta por indícios de invasões recentes a sua residência. De acordo com Joice, há dois meses um funcionário encontrou um maço de cigarros em um dos cômodos, sendo que ninguém ali tem costume de fumar. Na ocasião, ela estava em São Paulo e não havia mais ninguém na casa. Dois meses antes, outro segurança encontrou marcas de que alguém havia entrado.

"Eu tento evitar teorias da conspiração, senão não vivo. Mas existe a suspeita de que alguém, que obviamente é profissional, entrou aqui. E não entrou pelo elevador, mandando beijo para a câmera", disse, ressaltando que reforçou a segurança do local, adicionou novas câmeras e trocou todas as fechaduras.

Principais suspeitas

Joice Hasselmann terá nesta tarde uma conversa pessoal com o chefe do Departamento de Polícia Legislativa (Depol) para dar seguimento às investigações. Os agentes são os responsáveis pela segurança dos parlamentares e se revezam em rondas na área ocupada pelos apartamentos funcionais.

Entre as suspeitas estão a possibilidade de que a residência tenha sido invadida antes de ela chegar. "O apartamento é antigo, é grande. Tem cômodos que a gente não usa. Tem o famoso quarto da bagunça, um estúdio cheio de coisas inutilizadas, um quarto para rouparia. Um dos nossos agentes que era do Exército não descarta a possibilidade de que alguém tenha entrado e se escondido."

De acordo com ela, é possível também que alguma substância tenha sido adicionada em uma das garrafas de água que costuma carregar pela casa para que "apagasse" e fosse espancada.

Ameaças de morte

A deputada federal se diz "acostumada" a receber ameaças desde que iniciou na vida pública. Um dos casos mais emblemáticos aconteceu quando recebeu uma cesta de presente em casa e, ao abrir, encontrou uma cabeça de porco com um bilhete ameaçador.

“Essa covardia se alimenta porque a legislação não pune crime de ameaça. No último ano e meio fui ameaçada de tudo que você pode imaginar. Morte, estupro, espancamento, ameaçaram minha família. São ameaças constantes, tão constantes que passaram a fazer parte da vida. É horrível dizer isso, mas vira 'ok, estão me ameaçando de morte de novo'. E não existe prisão para isso. É um absurdo. Sou ameaçada todo dia, a polícia já sabe e faz o monitoramento."

"Desta vez, sem um médico em casa, eu poderia ter morrido. Fico sozinha muitas vezes, meu marido viaja para fazer operações. Fico eu e meus três gatos. Imagina o que poderia ter acontecido? Isso serve de alerta para que a segurança seja reforçada, especialmente nos apartamentos das mulheres (...). Mas eu não paro. Daqui uma semana estarei em cima do salto andando pelo Congresso. Não desisto nunca", concluiu Joice.