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"Não falta vacina no Brasil, falta governo", diz médico sanitarista fundador da Anvisa

Datena 07/01/2021 • 11:39

Não falta vacina contra covid-19 no Brasil, falta governo. A afirmação é do médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) Gonzalo Vecina Neto. Fundador da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ele fez a declaração nesta quinta-feira (7) em entrevista à Rádio Bandeirantes ao comentar a informação de que a eficácia observada pelo Instituto Butantan na fase 3 dos estudos da CoronaVac foi de 78%.

"Isso já era esperado. Na fase 1, você pega 200 ou 300 pessoas e vê se a vacina é segura. Na fase 2, pega mais 200 300 pessoas e vê se há resposta imunológica. Depois, na fase 3, pega milhares de pessoas e vê melhor o que acontece. Na fase 2, a CoronaVac já tinha mostrado uma eficácia alta. Não me surpreendo (...). Sem contar que a tecnologia da vacina da Sinovac é a que mais conhecemos. No Butantan, particularmente, é a tecnologia da vacina da febre amarela, sarampo, pólio. Se me perguntassem qual vacina eu gostaria de tomar, eu responderia 'a que eu conheço melhor a tecnologia'. Essa é uma vacina histórica, segura e eficaz. Temos muitos exemplos. É uma bela proposta de vacina", disse o sanitarista.

"E foi o Butantan que conseguiu fazer esse acordo. Ele tem que ser aplaudido de pé. Não é coisa do João Doria [governador] nem do Dimas Covas [atual diretor do instituto]. O Butantan tem 100 anos. Não nasceu neste governo. O mesmo com a Fiocruz. Quem fez o acordo com a AstraZeneca não foi o Ministério da Saúde. Foi a Fiocruz apesar do Ministério da Saúde. Essas instituições garantiram que o Brasil tivesse quase 400 milhões de doses durante o ano à disposição. Estou muito tranquilo. Elas estão salvando Brasil. O SUS está salvando o Brasil. Temos que tirar o chapéu e agradecer. Estão garantindo que o Brasil estará imunizado. Não falta vacina no Brasil, falta governo", completou.

O médico sanitarista criticou especificamente a suspensão de compra de seringas e agulhas anunciada pelo governo federal devido à suposta alta nos preços.

"Ingenuidade é uma forma positiva de burrice, mas não deixa de ser burrice. Não sou ingênuo, trabalho com fatos. Sei o quanto a Fiocruz pode produzir. Sei o quanto o Butantan pode produzir. Não falo de pensamentos, falo de fatos. De repente o sujeito levanta e fala 'cancela a licitação de agulhas e seringas'. Ora, não dá para ter vacina assim. Eu não quero comprar 350 milhões de agulhas amanhã. Amanhã eu preciso de 10 milhões. No mês que vem vou precisar de mais 10 milhões. Tem que ter inteligência para articular o cronograma de seringas e agulhas com o cronograma de vacinas e dar a informação para a sociedade. Desespero é fruto de ignorância."

https://youtu.be/tzf8qbYrMWQ