Boa Tarde, São Paulo

"Pensei que ele fosse me matar", diz procuradora agredida em Registro (SP)

Gabriela foi agredida pelo procurador depois que ele se revoltou por um processo disciplinar movido contra ele

Da Redação 22/06/2022 • 14:27 - Atualizado em 22/06/2022 • 15:01

A procuradora geral da cidade de Registro, no interior de São Paulo,  Gabriela Samadello Monteiro de Barros, 39, relatou o seu sentimento enquanto era agredida pelo também procurador Demétrius Oliveira Macedo, 34. Durante entrevista ao Boa Tarde, São Paulo desta quarta-feira (22), ela afirmou que pensou que iria ser morta pelo agressor.  

Gabriela diz que ficou "anestesiada" em meio aos socos e agressões verbais de Demétrius. "Pensei que ele fosse me matar. Ele me xingava muito, com todos os tipos de palavrões. Me espancou. Ele não queria parar. Nunca imaginei que isso poderia acontecer", relatou.  

A procuradora reafirma ainda que foi agredida pelo procurador depois que ele se revoltou pelo processo disciplinar movido contra ele devido ao seu mau comportamento com outros funcionários da procuradoria local.  

No entanto, o processo ainda não havia sido aberto e a comissão que deve presidir o processo ainda estava sendo escolhido. "Tentei conversar diversas vezes com ele em relação as suas atitude. Ele nunca quis. Eu, como chefe dele, não poderia permitir que ele tratasse outros colegas com má educação".

Na ação filmada por outra funcionária e divulgada nesta terça-feira (21), ele desferiu uma série de socos enquanto a mulher estava caída. Colegas tentaram impedir as agressões, mas Macedo deu mais um soco no rosto de Gabriela.

Vídeo: Procuradora é agredida com socos e chutes

Duas mulheres tentaram contê-lo e afastar Gabriela do local. A procuradora se levantou e recebeu um soco no rosto desferido pelo procurador. Ele só parou quando outros funcionários a trancaram numa sala e conseguiram segurá-lo.

A procuradora relata que, mesmo após a agredir, Demétrius ficou em sua sala por pelo menos 30 minutos até a chegada da polícia. O homem foi encaminhado ao distrito policial para prestar depoimento. "[No dia] ele voltou a trabalhar como se nada tivesse acontecido", disse.  

Na delegacia, o procurador afirmou que sofria “assédio moral” no trabalho por parte da procuradora. Na sequência, ele foi liberado por não haver “situação de flagrante”, segundo o delegado do caso. 

Em nota enviada ao Boa Tarde São Paulo, a Polícia Civil afirma que o caso não se enquadra na Lei Maria da Penha, pois não houve violência doméstica e, por isso, o homem não foi preso. No momento, Demétrius está afastado de suas funções e teve os vencimentos suspensos temporariamente por 30 dias, sem receber salário.  

Sobre a possibilidade de voltar a trabalhar no mesmo ambiente do seu agressor, a procurada relata: "Não tem condições. Me sinto desrespeitada, humilhada e menosprezada. Desejo que ele seja demitido e, consequentemente, seja banido de suas funções como funcionário público".  

Segundo a procuradora, o agressor pode ser expulso da procuradoria sem poder exercer sua função em qualquer outro órgão público. Ele ainda pode ser banido, sem ter a possibilidade de realizar um novo concurso público, conforme relatou a vítima.  

"Não consigo trabalhar. Minha equipe está com medo. Quero continuar, não vou abandonar minha carreira por uma pessoa que não me respeitou. Pretendo continuar exercendo minha profissão. Quem tem de pagar pelo crime é ele. Não posso pagar com minha profissão", comentou a vítima.  

Ainda sobre as agressões, a vítima relata que elas começaram após outra colega de procuradoria assumir o cargo de chefia. Gabriela é chefe de Demétrius desde 2021, mas exerce o cargo de procuradora desde 2013 na cidade do interior paulista, e o agressor, desde 2011.

Gabriela relatou também sua rotina após o ocorrido. "Minha família tem medo. Tenho medo de ser assassinada, dele passar com um carro por cima de mim. Ele está solto por aí. Inadmissível que nada tenha sido feito ainda". 

Nesta tarde uma manifestação foi realizada na cidade em apoio à procuradora. Manifestantes pedem que o agressor seja punido imediatamente. 

Em nota, a Prefeitura de Registro afirmou: “A Prefeitura de Registro manifesta o mais absoluto e profundo repudio aos brutais atos de violência realizados pelo Procurador Municipal contra a servidora municipal mulher que exerce a função de Procuradora Geral do Município, fatos ocorridos na última segunda-feira (20). Que a vítima e sua família recebam toda nossa solidariedade, apoio e cada palavra de conforto e acolhimento”.

“A administração municipal está tomando as providências necessárias e já determinou de imediato que o agressor seja suspenso, nos termos do art. 179, c/c inc. III do art. 180, ambos da Lei Complementar nº 034/2008 – Estatuto dos Servidores Públicos do Município de Registro, com prejuízo de seus vencimentos, a partir de 21 de junho. Reafirmamos nosso compromisso com a prevenção e enfrentamento a todas as formas de violência, principalmente aquelas que vitimizam mulheres”.

A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Registro disse que vai mover ação contra o procurador municipal na Comissão de Ética e Disciplina.