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Brasil pode ter pressão na inflação por até dois anos, analisa economista

Professor e economista Gesner Oliveira, da FGV, analisou cenários para o País pós-pandemia no BandNews TV

Da Redação, com BandNews TV 14/10/2021 • 00:40 - Atualizado em 14/10/2021 • 00:53

Para o professor e economista Gesner Oliveira, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma conjunção de fatores nacionais e internacionais pressiona para os altos índices de inflação que o Brasil vive, com aumento de preços de produtos básicos para a população em geral. O economista não acredita em “descontrole inflacionário”, como os vistos nos anos 1980, mas analisa que o processo de estabilização pode levar até dois anos.

“Acho que a gente vai conviver um pouco mais com a pressão inflacionária por ser um processo, na verdade, mundial. A gente está vivendo uma situação que é uma combinação de uma sequela da maior crise global que nós já tivemos na história econômica. O ano de 2020 marca um choque que a economia mundial nunca teve de maneira simultânea. Nem na Grande Depressão, que foi bastante profunda, houve uma recessão tão generalizada e um choque tão generalizado”, apontou em entrevista ao Ponto a Ponto, programa da jornalista Mônica Bergamo e o cientista político Antônio Lavareda no BandNews TV desta quarta (13). Veja a entrevista na íntegra acima.

O estudioso enfatizou que o problema pode seguir se refletindo nos preços nos “próximos 18 a 24 meses". Em setembro, a taxa oficial da inflação ficou em 1,16% - a maior para o mês desde o início do Plano Real, em 1994.

“Essa combinação de sequela da crise da Covid-19 aliada às mudanças estruturais associadas à transição energética vieram pra eu ficar. E o Brasil recebe esse choque. Como um país emergente, já tem uma volatilidade grande da taxa de câmbio. Além disso, tem os seus próprios problemas domésticos”, ponderou.

Para Oliveira, além de problemas estruturais e de gargalos na cadeia produtiva, como o desequilíbrio na matriz de transporte (60% da carga é escoada por rodovias, que encarece o preço final), a crise econômica tem algumas de suas consequências agravadas por posturas do presidente Jair Bolsonaro e do governo federal, como no embate com o Judiciário, além de incertezas sobre os rumos da reforma tributária e administrativa que tramitam no Congresso.

“Os conflitos entre Legislativo, Executivo, Judiciário também não contribuíram, geraram uma situação de apreensão que acabou levando a um patamar de preço do dólar que é maior do que aquele que os fundamentos da economia determinariam. Então, eu tenho a impressão que nós acabamos acirrando, acentuando oscilações que existem, que de qualquer maneira estariam aí, mas a gente acabou agravando e gerando uma pressão maior do que aquela que seria esperada”, analisou.

O economista projeta ainda o início de recuperação principalmente na área de serviços, com o relaxamento das restrições pela Covid-19, neste último trimestre de 2021. Porém, ele analisa que economia brasileira ainda não achou o caminho para manter uma política de crescimento sustentável, mesmo antes da pandemia.

“Infelizmente, acho que a gente ainda não encontrou esse caminho, o caminho da retomada sustentável. Nós encontramos o caminho de um crescimento modesto, que é o que é a perspectiva para 2022. Na verdade, replica um pouco o que nós vimos em 2017, 2018, 2019, um crescimento baixo, um pouco acima do crescimento populacional, mas não uma perspectiva de retomada mais sustentada”, afirmou dizendo que falta ao Brasil um “projeto de longo prazo”.