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Família diz que Patrícia Olivares queria terminar namoro antes de ser morta

Corpo da psicóloga foi encontrado na segunda-feira (19) na casa do namorado, em Cotia (SP)

Da Redação, com Brasil Urgente 21/07/2021 • 17:26 - Atualizado em 22/07/2021 • 14:47
Corpo da psicóloga foi encontrado na segunda-feira (19) na casa do namorado, em Cotia (SP)
Corpo da psicóloga foi encontrado na segunda-feira (19) na casa do namorado, em Cotia (SP)
Reprodução

Patrícia e Ricardo estavam juntos há pelo menos três anos. Não eram casados no papel, mas passavam boa parte do tempo na casa dele, na Granja Viana, em Cotia, cidade na região metropolitana de São Paulo.

A família dela já sabia que Patrícia queria dar de vez um fim no relacionamento. Ela não aguentava mais o temperamento possesivo e controlador do namorado.

Mas ninguém imaginava que poderia acontecer o pior: um desfechou trágico com a morte da mulher de 41 anos, cujo corpo foi encontrado na segunda-feira (19) na casa de Ricardo.

O corpo de Patrícia Cristina de Lima Farfán Olivares foi enterrado em um cemitério na zona leste de São Paulo. Parentes, amigos e colegas de trabalho foram se despedir da vítima.

Muito abalados, pediram privacidade, mas disseram que ela já tinha terminado o relacionamento com Ricardo e foi até a casa dele na sexta-feira apenas para buscar alguns pertences. Depois disso, ela não fez mais contato com a família.

Muito preocupados, os parentes então pediram a ajuda da policial. Os agentes foram até lá e a mulher foi encontrada morta com cinco tiros pelas costas. A chave do carro estava perto das mãos, indicando que tentava fugir. Não houve tempo.

Acabou morta por Ricardo Trindade, 44 anos, que já tinha histórico de violência doméstica envolvendo outras vítimas. Nenhum conhecido de Patrícia disse saber do passado de Ricardo.

Patrícia se formou em psicologia, mas atuava em outras áreas. No momento, trabalhava em uma empresa de consórcios e estava feliz com o novo emprego. Uma das colegas de trabalho prestou homenagem a ela nas redes sociais.

“É assim que vou me lembrar de você, todas as manhãs com este sorriso doce”, escreveu. “Hoje a tristeza bate aqui, mas tenho certeza de que o céu ganhou um ser para brilhar.”

Em áudio, outra funcionária da empresa ressaltou as qualidades de Patrícia.

“Fiquei chocada, que essa moça trabalha comigo, ela me contratou, sabe? Ela é psicóloga. Essa moça que morreu, essa Patrícia, ela é psicóloga, é pós-graduada, é uma moça muito centrada, e a gente nunca ia imaginar ali que ela passaria por isso, por feminícidio. Fiquei assim chocada mesmo”, diz a gravação.

“Esse negócio de feminicídio é um todas as classes. Quem tem diploma, quem não tem. Muitas mulheres passam por isso e a gente nem imagina, né? A pessoa trabalha com você todo dia e você jamais vai imaginar que ela sofre isso, que ela está em um relacionamento tóxico. É complicado.”

Falha na arma de policial

O caso, que impactou a Grande São Paulo nos últimos dias, começou com o desespero de uma família que chamou a Polícia Militar à procura de uma mulher desaparecida desde sexta-feira (16). A PM foi até o local na Granja Viana. Os policias militares viram o carro de Patrícia estacionado na frente da casa do namorado dela, com roupas e objetos pessoas no banco de trás.

A PM tentou contato na casa. Não conseguiu. Como não havia notícia de crime, foi embora.

Mas a família não desistiu e pediu socorro – desta vez, para a Polícia Civil. Três investigadores foram até o local e entraram na casa. Lá, encontraram o corpo de patrícia. Ricardo tentou fugir. 

Imagens exclusivas obtidas pelo Brasil Urgente mostram a fuga de Ricardo. Às 16h49 da segunda-feira (19), ele passa correndo por uma rua com a mão na cintura, onde escondia uma pistola.

Segundos depois, o vídeo mostra também o policial civil Alessandro Roberto de Medeiros, de 42 anos, que acabou morto em confronto com o namorado de Patrícia.

No confronto, a arma de Alessandro falhou. Ele foi baleado.

Em fevereiro, a Polícia Civil de São Paulo recebeu 4.470 novas pistolas semiautomáticas .40 Glock. Mas esse número representa apenas cerca de 20% do efetivo, que tem quase 28 mil policiais civis em todo o estado.

“A Polícia Civil do estado de São Paulo não tem um investimento necessário para que ela possa atuar de acordo com sua potencialidade. Armas obsoletas ainda estão nas mãos dos policiais. Armas apresentando pane ainda estão nas mãos dos policiais”, relatou Raquel Gallinati, presidente do Sindpesp (Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo).

Em fotos obtidas com exclusividade pelo Brasil Urgente, é possível ver que a pistola Taurus .40 usada pelo investigador Alessandro apresentou um defeito após o primeiro disparo e travou.

“Em princípio, a arma não fechou completamente o ferrolho (após um disparo inicial), e a Polícia Científica vai poder dizer qual foi o tipo de falha, de travamento”, explicou o delegado Rui Fellipe Xavier.

O caso não foi isolado. Em 2016, o delegado José Antônio do Nascimento foi morto a tiros numa tentativa de assalto na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul. Ele reagiu à ação de dois bandidos, mas a pistola dele, outra Taurus .40, também travou.

O mesmo aconteceu em 2019. O sargento da Polícia Militar Ronaldo Ruas, de 52 anos, morreu depois de ser baleado em uma operação na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O PM não pôde contar com a própria arma no momento em que mais precisou para se defender. A pistola usada pelo sargento travou durante um confronto com criminosos.

Em nota, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do estado de São Paulo) disse que abriu investigação sobre os fatos ocorridos na Granja Viana, em Cotia. E que as asmas dos policiais vão passar por perícia.

A reportagem entrou em contato com a empresa Taurus, sobre as falhas das armas fabricadas por ela. Até o fechamento, não houve resposta.

“A gente vê que há um prejuízo no trabalho da atividade policial. É claro que a gente não quer prever mortes, mas a gente prevê, sim, que a sociedade está cada vez mais desprotegida, cada vez mais a mercê da criminalidade”, disse Raquel Gallinati , do Sindpesp.

Nota Taurus

A empresa lamenta e se solidariza com a família do policial e informa que não recebeu notificação de autoridades da Policia Civil sobre o caso. Enviamos ofício a autoridade competente, solicitando acesso as perícias técnicas.

A arma envolvida  na ação é uma arma antiga, do ano de 2006. Apenas uma perícia pode identificar as causas do ocorrido, devendo-se considerar todas as circunstâncias do caso e as condições de manutenção do armamento.

Os Peritos Balísticos Domingos Toccheto e Geraldo Bertolo consultados pela empresa informam que pode ocorrer a falha de ejeção do cartucho em decorrência de uma empunhadura fraca (“pulso fraco”) do atirador que foi ferido ou atingido em uma troca de tiros. Por isso, a importância da realização da perícia técnica.

Portanto, a empresa ratifica que só uma perícia técnica poderá determinar o ocorrido, qualquer conclusão antecipada é especulação.

 

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