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"Cara Preta", do PCC, pode ter sido morto em trama de empresários por R$ 100 mi

Pablo Henrique Borges e Vinícius Gritzbach foram presos suspeitos de participar de morte de megatraficante para o qual lavavam dinheiro

Lucas Martins 17/02/2022 • 19:40 - Atualizado em 17/02/2022 • 19:59

O Departamento de Homicídios da Polícia de São Paulo (DHPP) avançou na investigação da morte de morte de Anselmo Santa Fausta, o “Cara Preta”, um dos líderes da facção criminosa PCC, e seu comparsa Antônio Corona Neto, o “Sem Sangue”, no fim de dezembro de 2021, em São Paulo.

Dois suspeitos de serem mandantes do crime já foram presos. São eles os empresários Pablo Henrique Borges e Vinícius Gritzbach. O primeiro, apontado também como um hacker, foi detido em uma ilha particular em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Já o segundo está em uma cadeia pública de São Paulo, mas longe da facção, que domina os presídios paulistas, já que possui ensino superior.

A investigação do DHPP aponta que os empresários chegaram a lavar cerca de R$ 2 bilhões para o PCC em imóveis e criptomoedas. Mas, por algum motivo que a polícia ainda não conhece, “Cara Preta” exigiu a devolução de US$ 20 milhões (aproximadamente R$ 100 milhões) e fez ameaças. Este teria sido o motivo da execução do megatraficante, em uma trama de cifras bilionárias.

Grizbach teria sido sequestrado por outros quatro empresários ligados ao PCC pouco menos de um mês após a morte de Santa Fausta, onde teria sido mantido em cativeiro por várias horas. Ele deixou o local com vida, mas um dos sequestradores que defendeu sua versão da história sobre o valor milionário foi morto pouco tempo depois.

Outros suspeitos de envolvimento no caso “Cara Preta”

Dos cinco suspeitos com prisão decretada pela Justiça, três também são investidores do mercado financeiro, empresários de vários ramos, envolvidos com lavagem de dinheiro do PCC e de outros criminosos, alguns usando inclusive criptomoedas, segundo a investigação. São eles Robinson Moura, Rafael Maeda, o “Japa”, e Danilo Lima, além do agente penitenciário David Oliveira, que teria contratado o executor da dupla e recebido R$ 100 mil pelo serviço. Todos seguem foragidos.

David é amigo de infância de Vinícius e Pablo - ambos negam estarem envolvidos nas mortes.

Os outros três empresários envolvidos na trama chegaram depois da morte de Cara Preta, eram amigos e tinham negócios com o traficante. Eles teriam ligação com a morte do atirador e de outro empresário, Claudio Marcos de Almeida, de 50 anos, conhecido como “Django”.

O empresário de futebol Danilo Lima, conhecido como “Tripa”, é um dos empresários foragidos. Segundo as investigações, ele tinha negócios com Anselmo Santa Fausta e também com Pablo.

A morte de Cara Preta, no fim de dezembro de 2021, desencadeou uma série de outros crimes. Semanas após a execução, dois corpos foram encontrados decapitados ao lado de bilhetes que sugeriam um acerto de contas pela morte do chefe do PCC. O suposto executor teria sido morto pelo próprio crime organizado. Identificado como Noé Alves Schaun, ele foi decapitado, e sua cabeça foi deixada em uma praça do bairro do Tatuapé. De acordo com as investigações, ele teria sido contratado para “matar um agiota” e executou a dupla sem saber que, na verdade, estava atirando em um dos maiores traficantes do país.

“Cara Preta” estaria envolvido em roubo de aeroporto e tráfico internacional

Investigações sobre o roubo de 770 quilos de ouro no aeroporto de Guarulhos, em 2019, apontam que “Cara Preta” financiou aquela ação. Parte da quadrilha envolvida no roubo milionário foi presa, e alguns integrantes foram até condenados pelo roubo da carga, hoje avaliada em mais de R$ 250 milhões. 

De acordo com o Ministério Público, o traficante morto era peça chave da logística do tráfico internacional de drogas e responsável pela rota da cocaína entra a Bolívia, o Brasil e a Europa a partir do Porto de Santos (SP). É o setor mais lucrativo dentro do crime organizado, que deu fortunas a nomes como Gegê do Mangue, André do Rap e Anderson Gordão.

Apesar da posição de destaque no crime organizado, “Cara Preta” foi preso poucas vezes, e sempre por crimes menores. Era considerado pela polícia um alvo difícil, por ser um criminoso discreto.