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Críticas à China reduzem confiança nas relações com Brasil, diz ex-embaixador

Para Marcos Caramuru, País não deve tomar posição na relação entre EUA e China

Da Redação, com BandNews TV 12/05/2021 • 23:59 - Atualizado em 13/05/2021 • 06:01
Para Marcos Caramuru, País não deve tomar posição na relação entre EUA e China
Para Marcos Caramuru, País não deve tomar posição na relação entre EUA e China
Reprodução

As recentes manifestações negativas no Brasil a respeito da China “não são vistas de forma positiva” no país asiático e podem até criar problemas nas relações comerciais. A avaliação foi feita nesta quarta-feira (12) por Marcos Caramuru, ex-embaixador brasileiro na China.

“Isso, de alguma forma, reduz o brilho do nosso relacionamento e o grau de confiança que os chineses têm em nós”, disse Caramuru, em entrevista ao programa Ponto a Ponto da BandNews TV.

Representante diplomático do País em solo chinês entre 2016 e 2018, Caramuru lembrou a “relação sólida” que os dois países têm construído ao longo de muitos anos. Por isso, apesar do desgaste recente, o relacionamento estaria longe de uma ruptura.

“Nós construímos ao longo de décadas uma relação sólida com a China, uma relação ambiciosa. Nos anos 80, quando começamos a nos relacionar com a China, montamos um programa de confecção e lançamento de satélites. Nos anos 90, nos tornamos o primeiro país a ser parceiro estratégico da China. Nos anos 2000, nos tornamos parceiro comercial. Tudo isso pesa a nosso favor”, listou.

O desgaste vem em um momento importante no combate à pandemia do novo coronavírus, uma vez que boa parte das vacinas aplicadas no Brasil depende de insumos oriundos da China. O ex-embaixador, no entanto, vê uma postura bastante diplomática entre as partes envolvidas.

“Acho que a Fiocruz conseguiu construir uma relação bastante razoável com essa unidade da AstraZeneca que produz na China, assim como o (Instituto) Butantan tem uma relação muito sólida com a Sinovac”, analisou Caramuru, que crê que atrasos no envio de insumos ao Brasil se deva às demandas internas chinesas.

“Acredito que, neste momento, a China começou a vacinar maciçamente sua população, portanto também precisa das vacinas. Ela faz concessões porque sabe que é um dos poucos países do mundo que exporta vacinas a partir de lá.”

Brasil entre EUA e China

O alinhamento entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente norte-americano Donald Trump fez com que a China se tornasse um alvo recorrente de posicionamentos. No mais recente ataque, na última quarta-feira (5), Bolsonaro insinuou que o Sars-Cov-2 teria sido criado em laboratório, sem citar diretamente os chineses.

O posicionamento, avalia Caramuru, acaba prejudicando negócios entre Brasil e China. Segundo dados do Ministério da Economia, a China foi o país que mais importou do Brasil em 2020 (37,04%), à frente dos EUA (9,85%), da Holanda (3,69%), da Espanha (3,22%) e da Argentina (2,71%).

“(A postura) só causa prejuízo ao nosso relacionamento com a China e, portanto, gera uma série de desconfianças na mente dos empresários, daqueles que investem no Brasil, de empresas que dependem de suas exportações para a China”, analisou o ex-embaixador.

“Tudo isso cria um ambiente de instabilidade que é muito negativo para o relacionamento, tanto para os chineses que estão aqui, quanto para os nossos empresários que ou comercializam com a China ou têm investimentos com a China.”

Para Marcos Caramuru, a chegada de Joe Biden à Casa Branca deve dar novos rumos à relação entre Washington e Pequim.

“Acho que os Estados Unidos buscarão uma agenda com a China que envolva um certo espaço para conflitos ou para divergências, um certo espaço para cooperação, e eu acho que todas as nossas melhores expectativas têm que ser que o espaço para cooperação seja mais importante ou mais valorizado que o espaço para a divergência”, disse Caramuru, que espera que o Brasil não tome posição de nenhum dos dois lados.

“Nós temos interesses muito específicos com os dois países”, destacou.

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