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Fogão a lenha improvisado pode causar riscos à saúde

Preço do gás tem feito população buscar alternativas no preparo de alimentos

Da Redação, com Jornal da Band 07/04/2021 • 20:43 - Atualizado em 07/04/2021 • 20:47

Na reportagem desta quarta-feira (07) da série especial que mostra brasileiros pobres que estão trocando gás por lenha na hora de fazer comida, você vai ver que os fogões improvisados trazem riscos à saúde. As informações são de Yan Boechat, do Jornal da Band.

Foi no começo de março que Maria Aparecida aceitou que as coisas teriam que mudar. Desempregada, com bicos do marido cada vez mais raros e o filho especial a demandar os cuidados de sempre, decidiu aposentar o velho fogão a gás.

“Ficou muito difícil as coisas. Um botijão de gás aqui é R$ 100. Com R$ 100 que eu compro um botijão, eu compro alguma coisa para minha cara, para o meu filho”, diz ela.

Fazia só duas semanas que Aparecida tinha montado um fogão a lenha improvisado quando a reportagem visitou sua casa, no extremo zona sul de São Paulo. A fumaça, o calor, a falta de estrutura daquilo tudo estavam lhe cobrando um preço.

"Sinto um cansaço. É calor demais. Sinto muito cansaço, muito calor de ficar o dia todo aqui cozinhando com essa fumaça. Sinto muita dor de cabeça, muita dor de cabeça de noite, não consigo dormir. Aí tomo um remédio e durmo", relatou.

Apesar das dificuldades de passar o dia neste cubículo a cozinhar, Maria Aparecida sabe que dificilmente voltará a usar o fogão a gás que mantém em sua cozinha. Pelo menos em um futuro breve.

Agora, ela faz planos para remediar os problemas que vieram com as mudanças impostas pelo empobrecimento.

“Irrita muito a minha vista, irrita muito. Agora, meu marido vai comprar um saco de cimento e fazer uma chaminé para cima, para ficar tudo bonitinho para mim”, anunciou.

Ninguém sabe ao certo os impactos que o aumento crescente do uso de lenha tem tido sobre a saúde desses milhões de brasileiros que fogem do gás. Sem pesquisas e em um ano em que todos esforços estão concentrados em uma única enfermidade, talvez nunca se saiba. Mas eles são inevitáveis.

“Os fogões a lenha eram as origens de várias doenças respiratórias crônicas. Por exemplo, o enfisema pulmonar. Óbvio que não é um uso emergencial que vai te levar a um enfisema, mas o uso contínuo pode acarretar em doença pulmonar obstrutiva”, disse o médico pneumologista Elie Fiss.

A exposição direta à fumaça ainda pode causar problemas mais imediatos. “Pode causar quadro inflamatório agudo a inalação dessa fumaça, pode causar quadro de bronquite aguda”, completou.

Nas comunidades pobres, há o agravante da qualidade da madeira e dos próprios fogões.

“Eles têm um fogão de tripé, uns tijolos com uma trempa em cima e cozinham”, explicou Adriana Gioda, professora de Química da PUC-RJ. “Essas madeiras são tratadas com algum produto químico. Então, eles estão expostos a essa fumaça altamente tóxica, que tem material particulado, que é uma das coisas que mais matam no mundo hoje.”

E quem mais sofre são as mulheres. Em visitas pelas comunidades pobres de São Paulo e da região metropolitana, a reportagem não encontrou um homem sequer debruçado sobre o fogão a lenha.

Na casa de Sabrina Alvez é assim. Só ela está empregada. Ainda assim, cabe a ela o papel de cuidar da comida dos três filhos e do marido.

“É mais o cansaço. Saio daqui às 4h30 para dar conta de três crianças, o marido, cozinhar... E quando tem que cozinhar de lenha depois das 17h?”, conta ela.

E como fazer essa divisão entre o gás e a lenha? “Lá fora, eu uso (lenha) quando estou de folga, porque tenho que correr atrás de lenha, que dá mais um pouco de trabalho. Aí a gente vai revezando, entendeu? Eu faço o básico aqui (com gás), que é arroz, frango. O feijão, coisa que demora mais tempo, a gente tem que fazer no fogão a lenha. Desde o início da pandemia que a gente vem fazendo isso”, completou.

E Sabrina sofre com a fumaça. “Como eu tenho problema de sinusite, a fumaça pega muito. Se eu falar que gosto de cozinhar na lenha, estou mentindo. Eu não gosto, só cozinho por necessidade.”

Ela se agarra à fé para manter as esperanças de que as coisas voltarão a ser como um dia já foram. “Cozinhando à lenha porque a gente estão está com condições. O meu salário não dá para tudo. Bate um desespero, um desânimo. Mas, com fé em Deus, em nome de Jesus, vai tudo melhorar.

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