Jornal da Band

Quilombola supera falta de estrutura e conquista vaga em medicina na Bahia

Matheus de Araújo venceu dificuldades, como luz improvisada e casa emprestada, para chegar ao curso mais concorrido da universidade pública

Ramon Ferraz, do Jornal da Band 05/07/2021 • 20:59 - Atualizado em 05/07/2021 • 21:31

Agora você vai conhecer a história inspiradora de um jovem quilombola, que conseguiu passar em medicina numa universidade pública da Bahia. Só que o caminho até lá não foi fácil e escancarou uma série de desigualdades. 

Matheus de Araújo vem superando a escuridão da desigualdade com a luz do conhecimento.

Coragem, dedicação, persistência. Tudo por um sonho que surgiu da vontade de ajudar o irmão que tem problemas mentais. Matheus, um jovem pobre que nasceu em uma comunidade quilombola no interior baiano, quer ser o primeiro médico da família.

"Você, quando está em uma classe menos favorecida, para chegar lá você tem que dobrar o esforço. Então, a meritocracia no Brasil não existe.", analisa o novo calouro de medicina.

A vaga para o curso de medicina é a mais disputada nos processos seletivos. E é ainda mais difícil quando é para uma universidade pública, sonho que parece distante demais para quem nunca estudou em colégio particular com boa estrutura. E que sequer tem dinheiro para pagar um cursinho pré-vestibular. 

Mas isso não fez Matheus desistir. Ele conseguiu uma casa, emprestada por uma amiga, para estudar e se concentrar. Mesmo sem energia elétrica, foi no local que ele se preparou por oito meses para o Enem.

"Devido à pandemia, fiquei sem renda alguma. O resto de dinheiro que eu imprimi esses módulos com questões do Enem e baixava o material em PDF no celular. Tentei estudar em casa, não tinha como, porque tem bastante irmãos, tem bares ao redor. Cheguei aqui e me deparei com essa casa sem energia. Quando escurecia, pegava o celular, ligava a usava tipo como se fosse uma lâmpada”, relembra.

Deu certo. Depois de fazer 8 Enems e 15 vestibulares, Matheus agora é estudante de medicina da Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

As aulas, por enquanto, são online. Quando voltarem a ser presenciais, o jovem vai se mudar de Feira de Santana para Santo Antônio de Jesus, onde fica a universidade. Ele até abriu uma vaquinha virtual para conseguir comprar livros e se manter na cidade.

A mãe, dona Raimunda, está toda orgulhosa. Mas faz um pedido.

“Tratar, com todo carinho, com todo o amor, aquele mais humilde que chegar no consultório dele. Você tem que gostar do que você faz, escolher por amor”, recomenda a matriarca.

Matheus já tem mais um objetivo traçado.

“Que eu venha a ser um médico da saúde da família ou neurologista. Estudar bastante para dar um retorno para minha comunidade, quem sabe daqui uns 20 ou 30 anos ser ministro da Saúde. Sonhar grande e sonhar pequeno é o mesmo esforço”, finaliza.