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Opinião: Milei não tem chance, mas deve aproveitá-la

Vitória do anarcocapitalista Javier Milei é um grande e arriscado experimento – mas também uma enorme oportunidade. E isso também para o Brasil, opina Alexander Busch.

Por Deutsche Welle

O autoproclamado libertário Javier Milei obteve uma vitória inesperadamente clara nas eleições argentinas: recebeu quase 56% dos votos, mais de onze pontos percentuais à frente de seu oponente. Ou seja: Milei conseguiu reunir muito capital político. É uma enorme oportunidade para a Argentina - com um risco igualmente grande.

Afinal de contas, a mensagem da vitória de Milei é clara: a grande maioria dos jovens argentinos rejeita claramente a eterna impunidade de governos trapaceiros. Toda uma geração na Argentina quer mudanças e não espera uma solução para os problemas do país por parte dos políticos estabelecidos que governaram o país nos últimos 40 anos de democracia.

Em praticamente 20 anos, os peronistas, que governaram intermitentemente, não se atreveram a fazer uma única tentativa de reforma. O objetivo era a manutenção do poder e do clientelismo estatal. Impostos, dívidas e inflação foram usados para manter o modelo funcionando, às custas do crescente empobrecimento da população argentina.

Os políticos burgueses-conservadores do governo de Mauricio Macri também não convenceram. Seu programa de reforma gradual a partir de 2015 foi um fracasso estrondoso. Não é de se admirar que tenham sido punidos no primeiro turno das eleições.

Medidas radicais

O outsider Milei identifica claramente os problemas da Argentina e propõe medidas radicais: ele quer permitir que o dólar seja um meio de pagamento paralelo, cortar radicalmente os gastos públicos e abrir a fechada economia ao comércio e aos investimentos. E ele diz que quer fazer mudanças drásticas rapidamente.

No entanto, o risco está na implementação: qualquer uma de suas reformas anunciadas primeiro agravará a crise.

A economia da Argentina está à beira da hiperinflação. Projetando a desvalorização dos últimos dois meses ao longo do ano, a inflação chega a 300%.A economia está em profunda recessão. O produto interno bruto sofrerá uma redução de 3% este ano. Mas essas previsões foram feitas antes da eleição - ainda não se sabe como a taxa de câmbio se desenvolverá agora. Toda desvalorização do peso aumenta ainda mais a inflação e desacelera a economia.

Ou seja: Milei não tem muito tempo. Ele precisa usar o impulso de sua grande vitória eleitoral para apresentar seu futuro gabinete e forjar alianças o mais rapidamente possível. O novo presidente não tem a maioria na Câmara nem no Senado para aprovar leis simples, mesmo contando com parte do campo da centro-direita – um projeto como a dissolução do Banco Central não tem nenhuma chance de ser aprovado.

Não será fácil para o colérico Milei construir uma base política – e, acima de tudo, mantê-la: afinal de contas, Milei foi, durante toda a vida, um solitário e nunca trabalhou em equipes, com burocracias ou com um aparato político.

Além disso, os peronistas que acabaram de perder o poder estão bem organizados para lançar protestos em todo o país – e aproveitarão a oportunidade para se posicionar como oposição.

Agora veremos o que Milei realmente quer implementar de seu programa libertário – e o que era apenas retórica de campanha. Por exemplo, o direito das pessoas de portar armas, comercializar seus órgãos ou consumir drogas.

E como fica o Brasil?

Outro ponto interessante é como será, na realidade, seu discurso em relação à política externa: Milei não quer trabalhar nem com a "China comunista" nem com o Brasil, que ele vê como "governado pelo socialismo" do presidente Lula – mas também não quer impedir que empresas privadas mantenham relações com esses dois dos mais importantes parceiros comerciais da Argentina.

Para os interesses do Brasil, seria importante um país vizinho estável. No entanto, a Argentina está enfrentando tempos turbulentos –o que teria acontecido mesmo sem Milei, em vista da grave crise.

No passado, Milei também não demonstrou simpatia pela comunidade econômica do Mercosul. Ele considera a participação da Argentina desnecessária. À primeira vista, isso não é uma boa notícia para o acordo Mercosul-UE, o qual grupos de negociação brasileiros e europeus discutem semanalmente para poder apresentar uma minuta de compromisso até o final do ano.

Por outro lado, Milei, que assumirá o cargo de presidente em 10 de dezembro, também poderia abraçar um acordo entre a UE e o Mercosul – afinal de contas, ele é a favor do livre comércio.

E os peronistas dos governos de Kirchner e agora de Alberto Fernández não apoiaram o Mercosul nem as negociações com a UE. Assim, Milei poderia até ser uma lufada de ar fresco, apesar de sua aversão ideológica ao governo Lula.

Resumindo, um chiste bastante conhecido na Alemanha se aplica bem à Argentina e a Milei: eles não têm chance – mas devem aproveitá-la.

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Há mais de 30 anos, o jornalista Alexander Busch é correspondente de América do Sul. Ele trabalha para o Handelsblatt e o jornal Neue Zürcher Zeitung. Nascido em 1963, cresceu na Venezuela e estudou economia e política em Colônia e em Buenos Aires. Busch vive e trabalha em Salvador. É autor de vários livros sobre o Brasil.

Autor: Alexander Busch

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