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Dez PMs são presos por corrupção; Comandante de batalhão é afastado

Os agentes sequestravam, torturavam e extorquiam os criminosos. Mais de R$250 mil em espécie, armas, munições, joias e radiocomunicadores foram apreendidos, sendo R$ 37 mil encontrado dentro do Batalhão de Caxias

Felipe de Moura* 26/05/2022 • 17:33
Operação contra PMs apreende R$254 mil
Operação contra PMs apreende R$254 mil
Divulgação

Dez policiais militares foram presos, na manhã desta quinta-feira (26), na Operação Mercenários. Ao todo, 11 PMs eram procurados por corrupção, tortura, peculato e concussão (quando um funcionário público usa do cargo para obter vantagens específicas) pelo Ministério Público do Rio e pela Corregedoria da PM.

Preso em flagrante no início da tarde de hoje (26), em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio, o subtenente Antônio Carlos Dos Santos Alves jogou cerca de R$ 100 mil na casa do vizinho e a polícia precisou entrar na casa ao lado para poder apreender o dinheiro. No carro do policial, mais uma quantia de dinheiro em espécie foi detida.

De acordo com investigações, o grupo sequestrava criminosos, tortura, e liberava depois do pagamento do resgate. Eles também extorquiam os bandidos, vendiam armas e vazavam informações de operações da polícia.

Até o momento, os agentes apreenderam R$254 mil em espécie, ouro, armas, munições, joias, caderno de contabilidade e radiocomunicadores. Trinta e cinco mandados de busca e apreensão em endereços relacionados aos denunciados também foram cumpridos.

O tenente-coronel André Araújo de Oliveira, comandante do 15º Batalhão da Polícia Militar (Duque de Caxias) é um dos investigados. As buscas foram feitas até no próprio Batalhão de Caxias, onde foi apreendido cerca de R$ 38 mil na sala do capitão Anderson Santos Orrico, chefe do Serviço Reservado do Batalhão, que também foi alvo da operação. Na casa dele, os agentes apreenderam outros R$ 96 mil. Ao todo, R$ 133 mil foram encontrados apenas com Orrico.

"Percebi um movimento estranha no batalhão, e decidi ver se o capitão ainda ocupava uma sala na P2. Em cima de um sofá tinha um fardamento dele (Orrico), e atrás do sofá a gente encontrou vários sacos de dinheiro, ali armazenados. Um valor de aproximadamente R$ 38 mil, que estão contando ainda", disse o promotor Eduardo Pinho.

Nas redes sociais, os policiais militares investigados se auto denominavam “os mercenários”. Em mensagens recuperadas pelos investigadores, o grupo de atuação em combate ao crime organizado do MP encontrou os próprios PMs assumindo que estavam com um traficante.

Numa das conversas, o sargento Adelmo da Silva afirma: "bom demais". "1 milhão". "metade para a pc (polícia civil) e metade para a gente". Os promotores ainda investigam quem são os policiais civis envolvidos no esquema.

O chefe do tráfico da favela Cantagalo/Pavão-Pavãozinho, na Zona Sul, o “Léo Marrinha”, pagou R$ 1 milhão por exigência de quatro dos denunciados.

“Em relação a esse 1 milhão de reais, foi uma extorsão comprovada. Há a admissão do denunciado Adelmo nas conversas de WhatsApp com um outro interlocutor. Ele disse que estava na posse desse traficante (Léo Marrinha), o que mostra na verdade que eles não viam limites territoriais para extorquir. Então, a gente já sabia a finalidade lucrativa era muito grande e as apreensões de hoje, de fato, comprovaram o que a gente já suspeitava”, complementou Eduardo Pinho.

Armas pesadas, munição, joias, radiocomunicadores e R$ 120 mil em espécie foram apreendidos apenas na casa do subtenente Antônio Carlos dos Santos Alves, também lotado no Batalhão de Caxias.

Três dos presos ainda não foram identificados. Os outros seis são: Adelmo da Silva Guerini Fernandes, Marcelo Paulo dos Anjos Benício, Mário Paiva Saraiva, Oly do Socorro Biage Cei de Novaes e Vitor Mayrinck.

ENTENDA O ESQUEMA

As investigações da Operação Mercenários tiveram início a partir da análise de dados do celular do então segundo-sargento Adelmo Guerini. O aparelho foi apreendido durante a Operação Gogue Magogue, em julho de 2020, que também mirava policiais.

Com os dados do aparelho, ficou constatado que PMs lotados no Grupamento de Ações Táticas (GAT) do 24º BPM e na P2 (Seção de Inteligência da Polícia Militar) do 21º BPM (São João de Meriti), valendo-se da função desempenhada nos batalhões, integravam uma organização criminosa, cobrando propina de criminosos, especialmente traficantes.

Em fevereiro de 2020, André Araújo, então subcomandante do 24º BPM, assumiu o comando do 21º BPM, levando parte do grupo para formar a P2 do 21º BPM, cujo chefe era Anderson Orrico.

A partir deste momento, o esquema criminoso existente no GAT do 24º BPM (Queimados) foi copiado e implementado no 21º BPM (São João de Meriti), com seus integrantes passando a contar com informantes e arrecadadores de propina próprios.

Depois disso, passaram a fazer parte da organização criminosa outros cinco policiais militares: Marcelo Leandro Teixeira, Oly do Socorro Biage Cei de Novaes, William de Souza Noronha, Fabiano de Oliveira Salgado e Thiago Santos Cardoso.

Os presos na Operação Mercenários foram levados para a unidade prisional de Niterói.

*Estagiário sob supervisão de Natashi Franco