Exercícios após covid-19 dependem de avaliação médica

Infecção do coronavírus pode aumentar risco de miocardites, isquemias e mesmo arritmias cardíacas

Alexandre Raith, da Agência Einstein 19/01/2022 • 19:42
Infecção do coronavírus não afeta apenas o pulmão, mas também o coração
Infecção do coronavírus não afeta apenas o pulmão, mas também o coração
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Antes de voltar à rotina de exercícios físicos, quem passou pela covid-19 deve buscar uma avaliação médica e, principalmente, cardiológica. Isso porque a infecção do coronavírus não afeta apenas o pulmão, mas também o coração — e as complicações deixadas pela doença podem aumentar os riscos de problemas no órgão. 

De acordo com Marcelo Bichels Leitão, cardiologista especialista em Medicina do Exercício e do Esporte, a sequela mais preocupante é a miocardite, uma inflamação da musculatura do coração. Embora afete menos de 5% dos indivíduos que tiveram covid-19, segundo estima o especialista, isso não é sinônimo de falta de perigo. 

“São situações importantes porque o coração é um órgão vital. Um comprometimento gera repercussões graves à saúde, e pode colocar a pessoa em risco de vida”, explica Leitão, que também é diretor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.

Se o indivíduo desenvolve uma miocardite aguda, por exemplo, os exercícios físicos podem ser um gatilho para aumentar o risco de arritmia. “Há um risco também de intensificar a reação inflamatória, e evoluir para um quadro de insuficiência cardíaca. Além disso, pode intensificar a isquemia, pois fazer exercício aumenta a necessidade de oxigênio no músculo cardíaco, para bombear mais sangue”, alerta o especialista. 

Pessoas que tiveram quadros graves de covid-19 estão em maior risco de isquemia, ou a falta de oferta de sangue e oxigênio para o músculo cardíaco devido à formação de coágulos dentro dos vasos sanguíneos. Tanto nesse caso quanto na miocardite, o paciente pode ter como sequela a formação de fibrose, que leva a quadros de arritmia e insuficiência cardíaca. 

Tipo de exercício importa?

Os riscos valem tanto para quem treina intensamente como para os que costumam apenas caminhar, pois a intensidade é relativa à condição de cada indivíduo, segundo Leitão. 

"Um atleta corre em uma velocidade de 15 km/h e uma pessoa faz caminhada a 8 km/h, por exemplo, mas a velocidade talvez represente para ela, que tem um condicionamento menor, o mesmo percentual de esforço que para um atleta”, explica o especialista. A recomendação é fazer uma avaliação pré-participação tanto cardiológica como respiratória e muscular.

“Muitas vezes [após a infecção por covid-19], a pessoa se sente cansada para esforços básicos, mas ela não sabe se é apenas falta de condicionamento ou um comprometimento do pulmão ou do coração. Ela se sente insegura e desiste de fazer atividade física, e o sedentarismo só piora a condição. Por isso, é importante consultar um médico e realizar os exames, para estabelecer os limites de intensidade e volume do exercício”, ressalta Leitão.

Segundo o especialista, se os exames não apresentarem lesões cardíacas, é possível liberar de imediato a volta progressiva às atividades físicas não competitivas. Em casos mais graves, é indicado que se faça uma reavaliação médica depois de 30 dias (para os atletas) ou 60 dias (para quem se exercita de forma recreativa).