Carnaval

"Pode me demitir": conheça os bastidores do enredo da Viradouro sobre vodun

Carnavalesco da escola disse a presidente que podia ser demitido se não fosse campeão com desfile sobre o culto ao vodun serpente

Por Romulo Tesi

Comissão de frente da Viradouro: protagonismo feminino
Comissão de frente da Viradouro: protagonismo feminino
Dhavid Normando/Rio Carnaval

A equipe da Viradouro estava em um bar em Salvador após uma visita ao Terreiro do Bogum, no bairro da Federação, quando o carnavalesco Tarcísio Zanon bateu no peito e desafiou o diretor-executivo da escola, Marcelo Calil Filho.

“Se a gente não for campeão, pode me demitir”, disse Zanon.

A petulância tinha explicação: a confiança depois do enredo “baixar” na escola, numa - palavras do enredista da escola, João Gustavo Melo - uma série de “coincidências e de intuições do carnavalesco” na viagem à capital baiana para pesquisas, durante a preparação para o Carnaval campeão de 2024 - o terceiro título da Viradouro.

A confiança acabou se materializando num desfile que sobrou perante aos concorrentes, último do Grupo Especial, e que teve o título confirmado na Quarta-Feira de Cinzas. Tanto que a diferença para a Imperatriz, vice-campeã, foi de 0,7 - um abismo, em se tratando da dinâmica de julgamento e equilíbrio de forças no Carnaval carioca. Enfim, sobrou. Isso depois de um campeonato que escapou por apenas um décimo, em 2023.

Curiosamente, a escolha do enredo sobre o vodun serpente, Dangbé, é fruto de conexões entre pelo menos três carnavais da Viradouro, todos com protagonismo feminino. E começou no desfile do ano passado, sobre a complexa e quase indecifrável Rosa Maria Egipcíaca, escravizada, considerada a primeira escritora negra no Brasil.

“O enredo de 2024 nasceu do que a gente chama de ‘ventre da Rosa’, que trata da tradição de culto aos voduns, de escravizados da região da Costa da Mina”, explica Melo, um dos mais premiados enredistas, função cada vez mais valorizada.

No Bogun, o enredo

O livro “Sacerdotisas Voduns e Rainhas do Rosário”, sobre os voduns em Minas Gerais no Brasil Colônia, serviu de fagulha para o enredo da Viradouro, mas faltava um fim. E a turma da escola encontrou tudo na Bahia.

Na viagem da equipe a Salvador, numa visita ao Terreiro do Bogun, a magia aconteceu - e graças a uma personagem ligada ao último desfile campeão da escola antes de 2024: Ivana Muzenza, produtora das Ganhadeiras de Itapoã, enredo da Viradouro em 2020.

“Foi uma amizade que ficou com a escola. Ivana é uma pessoa muito querida, muito importante, e ela abriu as portas do Bogum pra gente”, destaca Melo. “E quando a gente chegou no Bogum existia toda uma maravilha de história, de enredo, que era a do culto à serpentes”, completa o pesquisador.

A saga de Ludovina

A partir daí, a equipe da Viradouro mergulha na saga para que esse culto chegasse ao Brasil por meio de Ludovina Pessoa, sacerdotisa com origem no Reino de Daomé, atual Benin, que fundou o Bogum, casa que serviria de ponto de apoio à Revolta dos Malês, em 1835. 

A partir do contato com outro terreiro vodun, o Seja Hundé, em Cachoeira (BA), e o líder Ogan Buda, Zanon e Melo conseguiram estabelecer uma linha de enredo sobre o culto à serpente.

Enfim, a Viradouro havia achado Dangbé, o vodun serpente, e assim nascia o campeão - Zanon já sabia - “Arroboboi Dangbé”.

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