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Agora mãe, Cristiane fala de carreira, maturidade e homofobia nas redes

Em entrevista exclusiva, jogadora compartilha as dificuldades das noites sem dormir, da inseminação e do primeiro dia das mães longe do bebê

Da redação, com Band Esporte Clube

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Cristiane Rozeira está vivendo um dos momentos mais maravilhosos de sua vida. Em entrevista exclusiva ao Band Esporte Clube, a jogadora do Santos e da seleção brasileira contou sobre como ela e a esposa, Ana Paula Garcia, estão superando as dificuldades das noites em claro após o nascimento do filho Bento e da opção por seguir jogando durante o período de sua licença maternidade.

 “O Santos deu total respaldo. Se quisesse ficar parada os mesmos 120 dias da licença da Ana, eu ficaria. Mas não tem como, eu trabalho com o meu corpo e não não posso parar. Nos cinco dias em que fiquei afastada após o parto, perdi dois jogos e já estava sem ritmo de jogo quando voltei”, diz Cristiane.

Para a atleta, a maternidade é uma “alegria gigante”. "Para dormir, os primeiros dias foram bem difíceis. Algumas vezes, a Ana vira a madrugada e o dia sem dormir. Para aliviar, acordo e fico com ele um pouco. Mas existe a preocupação dela comigo, que diz 'fico aqui e você vai trabalhar'. Aí acabo dormindo um pouquinho mais do que ela”.

Bento nasceu no fim de abril, e Cristiane viverá o seu primeiro dia das mães longe do recém-nascido. “Meu primeiro dia das mães será por vídeo. A mamãe vai viajar para trabalhar. Temos jogo na segunda-feira em Porto Alegre. Já bateu uma super tristeza: primeiro dia das mães e não vou estar aqui com ele”, lamenta.

Cris Rozeira e o filho Bento. Foto: Arquivo pessoal

Inseminação sem doping

Cristiane contou que a pandemia acabou facilitando os planos do casal para ter um bebê, já que ambas conseguiram tempo para se preparar. 

"A gente não tem calendário, muito menos férias. Nesse período, coincidiu que eu conseguiria congelar os óvulos e fazer todo o procedimento para que a Ana pudesse engravidar -- ela estava com os meus óvulos, e o Bentinho tem a carinha da mamãe aqui", brinca a jogadora.

Segundo a atleta, o médico que acompanhou o procedimento precisou entender todas as regras de doping para avaliar quais medicações e hormônios poderiam ser usados, já que os óvulos dela seriam usados na inseminação.

“Tinha dias em que eu estava mais nervosa ou chorando mais. A Ana também teve que passar por todo esse processo”, conta. 

Cristiane se derrete ao elogiar a esposa. “Foi ela que carregou esse gordinho o tempo inteiro na barriga, que teve toda a mudança do corpo, que sentiu as dores do parto, na hora da medicação, da amamentação. Ela está sem dormir muito mais do que eu, e ainda me manda dormir. Não tenho palavras para descrever o que ela representa na minha vida."

A decisão pela inseminação de Ana Paula foi tomada em conjunto. "A Ana falava: ‘Você está em um momento muito especial da sua carreira, tem muita coisa legal acontecendo. E tem uma Olimpíada próxima que sei que você quer muito. Se você parar para engravidar agora, acaba com a carreira’. Quem é que iria me contratar com 37, 38 anos?”.

Cris e Ana Paula com o pequeno Bento. Foto: Arquivo pessoal

Homossexualidade e medo de perder patrocínios

Cristiane falou ainda sobre como gosta de inspirar quem convive com os mesmos medos relacionados à homossexualidade.

“Jogo esperança nas meninas ou nas atletas de que é possível, a Cris está realizando todos os sonhos que talvez elas acharam que não poderiam realizar”, contou.

Para a atleta, revelar a homossexualidade “foi um processo de maturidade”. "A gente tem que deixar as pessoas confortáveis para tomar as decisões do que elas querem na vida. Algumas vezes, a gente impõe que a pessoa precisa se expor e falar, e isso não é correto. Ela tem que sentir se é o melhor momento da vida dela."

“Durante muito tempo, acabei não me expondo porque a gente sabe como dentro da modalidade existe um preconceito muito grande. Além disso, a gente já não tinha as marcas do nosso lado, não tínhamos patrocínio. Eu tinha esse medo de me expor e imaginei que isso nunca fosse acontecer. Depois de toda essa mudança que temos hoje, com as marcas apoiando e fazendo campanhas… Imaginei que isso nunca fosse acontecer”, comemora Cristiane.

A jogadora da seleção brasileira relatou ainda que perdeu seguidores nas redes sociais com a revelação sobre a sua sexualidade. 

“Continuo recebendo piadinha idiota mesmo com o nascimento do Bento. Gostaria de não receber. Mas a maioria é enviada por homens perguntando ‘cadê o pai dele?’, ‘que neném bonitinho, mas cadê o pai?’. Fico pensando: 'Caramba, esses caras poderiam ter esse afinco que têm de mandar uma mensagem cobrando quem é o pai para cobrar aquele amigo que trai a esposa grávida, que não paga pensão, que agride a mulher e a criança”, desabafa.

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