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Max x Hamilton: Mortal disputa por território não é episódio isolado na F1

Livio Oricchio 14/09/2021 • 14:39
Carro de Verstappen ficou em cima do carro de Hamilton após batida em Monza - Reprodução/Band
Carro de Verstappen ficou em cima do carro de Hamilton após batida em Monza - Reprodução/Band

A mortal disputa por território entre os leões Max e Hamilton não é um episódio isolado. Entenda melhor o seu contexto.

Olá, amigos

O controverso acidente entre Max Verstappen, da Red Bull-Honda, e Lewis Hamilton, da Mercedes, neste domingo, em Monza, foi o segundo mais sério entre ambos na temporada, mas muito provavelmente não o último. O GP da Itália foi o 14º de um calendário previsto para ter 22.

Ainda estão bem ativas em nossa memória as imagens preocupantes do ocorrido entre os dois que lutam pelo título mundial ponto a ponto, curva a curva, ainda na primeira volta do GP da Grã-Bretanha, em Silverstone, dia 18 de julho. Tocaram-se perigosamente na entrada da veloz Curva Copse, a 309 km/h.

Voltaremos a falar desse assunto. O importante é ter em mente que pelo que se passou neste domingo, em Monza, Max foi punido com a perda de três posições no grid no próximo GP, o da Rússia, dia 26, e a inserção de dois pontos na carteira.

No evento da Inglaterra os comissários puniram Hamilton com 10 segundos, a serem cumpridos no seu pit stop, e também com dois pontos.

Reli depois do GP da Itália o Capítulo IV, Apêndice L, do Código Esportivo da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), bem como o documento número 50 emitido pela FIA em seguida aos comissários terem ouvido as explicações de Max e Hamilton sobre o acidente. Aproveitei para reler o documento 64 distribuído depois da bandeirada em Silverstone, dada a similaridade dos casos, envolvendo os mesmos notáveis pilotos.

Veja o acidente entre Hamilton e Verstappen em Monza:

A FIA com a palavra

Nos dois comunicados os comissários evocam o mesmo artigo 2, alínea D, do Apêndice L do Capítulo IV. Para você entender melhor o que desejo expor, aqui está o link original do regulamento da FIA.

O artigo 2 trata especificamente de ultrapassagens, controle do carro e respeito aos limites da pista. A regra é pouco específica, não exemplifica situações e os comportamentos legais e ilegais, conforme a leitura do link demonstra, o que nos leva a entender a subjetividade nas decisões dos comissários esportivos das corridas.

Imagine que todo o texto da alínea D, a utilizada pelos comissários para punirem Hamilton em Silverstone e Max, em Monza, se resume a isto:

“Causar colisão, repetir erros graves ou aparentar falta de controle do carro (como sair da pista) serão relatados aos comissários e podem implicar penalidades, incluindo a desqualificação e exclusão de qualquer piloto.”

Podemos resgatar, e me parece necessário, a alínea B, a que regulamenta as ultrapassagens. Ela diz:

“As ultrapassagens, consoante as circunstâncias, podem ser efetuadas à direita ou à esquerda. Um piloto não pode deixar a pista deliberadamente sem uma razão justificável. Não é permitida mais de uma mudança de direção para defender a posição. Qualquer piloto se movendo de volta para a trajetória de corrida, tendo defendido sua posição off line anteriormente, deve deixar pelo menos a largura de um carro entre seu próprio carro e a borda da pista na aproximação da curva. No entanto, manobras que possam atrapalhar outros pilotos, como ir além da borda da pista ou qualquer outra mudança anormal de direção, são estritamente proibidas. O piloto que parecer culpado de qualquer das infrações acima será relatado aos comissários.”

Carro de Verstappen ficou sobre o de Hamilton após batida em Monza - Reprodução/Band

A vez dos comissários

Agora vamos ler, juntos, o relatório dos comissários emitido neste domingo, em Monza, após ouvirem Max e Hamilton, os representantes de suas equipes e assistirem às imagens de TV do acidente, nos mais diferentes ângulos, alguns inéditos para o grande público.

Antes, deixa eu fazer um comentário. Os comissários esportivos do GP da Itália foram o quase sempre presente Garry Connelly, australiano, desde 1989 atuando na área, Tim Mayer, americano, filho de Teddy Mayer, ex-sócio da McLaren, também de larga vivência no automobilismo, e Paolo Longoni, representante local, há 30 anos no meio. O piloto convidado a dar sua opinião, mas sem direito a voto, foi Vitantonio Liuzzi, com 81 GPs de F1 no currículo, de 2005 a 2011.

Detalhe: nenhum deles estava no grupo de comissários esportivos do GP da Grã-Bretanha.

Vamos ao que eles escreveram, em Monza:

“Após ouvir os envolvidos e rever as imagens de vídeo, concluímos que o piloto do carro 33 (Max) é o culpado predominante pelo acidente com o carro 44 (Hamilton) na curva 2. O carro 44 estava deixando os boxes. O carro 33 se encontrava na reta principal. A 50 metros da curva 1, o carro 44 estava significativamente à frente do carro 33. Este freou tarde e começou a se mover ao lado do carro 44, embora em nenhum instante tenha estado à frente da roda dianteira do carro 44.

Durante a audiência, o piloto do carro 33 afirmou que a causa do incidente foi o piloto do carro 44 esterçar a direção (para dentro) após a Curva 1, apertando-o no ponto de tangência da curva 2. Já o piloto do carro 44 afirmou que o piloto do carro 33 tentou ultrapassar muito tarde e deveria ter desistido ou virado à esquerda, para cruzar a zebra.

Os comissários observaram nas imagens que o posicionamento do piloto do carro 44 fez com que o carro 33 tocasse a zebra. Além disso, os comissários viram que o carro 33 não estava ao lado do carro 44 até a entrada na Curva 1. Na opinião dos comissários, esta manobra (de ultrapassagem) foi tentada tarde demais para o piloto do carro 33 ter “direito ao espaço obrigatório” (a ser deixado por Hamilton). Apesar de o carro 44 poder se deslocar para evitar o incidente, os comissários entenderam que sua posição era razoável e, portanto, determinaram que o piloto do carro 33 foi predominantemente culpado pelo incidente.

Ao chegar à penalidade, os comissários enfatizam que eles apenas consideraram o incidente em si e não suas consequências.

Diferentes interpretações

Corta. Agora entro em cena novamente. Atente para as alíneas B e D do Artigo 2 e a decisão dos comissários. A reduzida abrangência e a generalidade do texto fazem com que outro grupo de comissários possa interpretar o acidente de forma distinta, talvez entender até que Hamilton não deixou espaço para Max, já com seu carro quase lado a lado.

Se viajarmos dois meses para trás no tempo, até Silverstone, veremos que da mesma forma a explicação dos comissários esteve longe de ser uma unanimidade. Mesmo dentre os pilotos houve discordâncias importantes quanto à responsabilidade pelo acidente entre Max e Hamilton no GP da Grã-Bretanha.

Veja, em resumo, o que os comissários daquela prova alegaram para impor os mencionados 10 segundos de punição a Hamilton, branda o suficiente para que, com seu imenso talento, vencesse a corrida:

“Os comissários revisaram as evidências de vídeo e telemetria. Os carros 33 e 44 entraram na curva 9 (Copse), com o carro 33 na liderança e o carro 44 um pouco atrás e por dentro. O carro 44 seguia trajetória externa, havia espaço disponível no interior da pista.

Quando o carro 33 iniciou o contorno da curva 9, o carro 44 não evitou o contato e a frente esquerda do carro entrou em contato com a traseira direita do carro 33. O carro 44 foi considerado predominantemente culpado.”

De novo chamo a atenção para a situação específica de Silverstone não estar no texto da regra que administra a legalidade das ultrapassagens na F1, abrindo brecha para interpretações por vezes distintas entre os diferentes grupos de comissários dos GPs e confundindo os pilotos quanto ao que podem e não podem fazer exatamente nessas manobras, decisivas no resultado.

Fácil falar, difícil fazer

O acidente de Monza poderia ter sido evitado? Obviamente que sim. Max precisaria ter tirado o pé do acelerador ao ver que Hamilton lhe fechou a porta para não contornar a curva 2 por dentro e, possivelmente, ganhar a posição. Ou o próprio Hamilton ter dado espaço para Max contornar a curva 2 ao seu lado, como havia já feito logo depois da largada na segunda chicane.

O mesmo vale para o ocorrido em Silverstone. Hamilton poderia ter aliviado o acelerador quando Max começou a contornar a curva ou mesmo deslocar sua Mercedes mais para dentro, pois havia espaço na pista. Outra possibilidade seria Max seguir uma trajetória um pouco mais aberta na curva, sabendo que Hamilton estava por dentro.

Essas soluções meio mágicas, exequíveis do ponto de vista prático, são extremamente difíceis de serem adotadas pelos pilotos, no calor da hora. Há muito em jogo. Max sabia que se Hamilton permanecesse na sua frente, seria extremamente difícil reaver a posição.

Assim como Hamilton tinha consciência de que era imprescindível sair da primeira chicane à frente de Max para lutar até pela vitória, tão importante em termos de reconquistar a liderança do campeonato.

Junto todos esses elementos em uma balança: sobre um dos pratos está um conjunto de regras que estabelece apenas diretrizes do que é permitido e proibido fazer nas ultrapassagens, como os pilotos devem se comportar. Outro peso adicional nesse prato é a pluralidade de “juízes”, ou comissários, o que dificulta sobremaneira a definição de sentenças e punições criteriosas, coerentes.

Cheios de adrenalina

No outro prato da balança encontram-se jovens pilotos ávidos para demonstrar a si mesmos e ao mundo o que são capazes de fazer com um tão veloz quanto complexo carro de F1, expressão máxima da performance e tecnologia. Mais: meio que inconscientemente os pilotos trazem consigo a pressão quase desumana de representar os mega interesses das empresas que investem milhões de dólares nas equipes, nesse mundo globalizado, bem como neles próprios.

Adicione ainda neste lado da balança as características particulares dos atuais carros de F1, sendo a maior delas, nesse cenário, a quase impossibilidade de ultrapassar um adversário com performance semelhante. Quase tudo deve ser decidido nas raras oportunidades que surgem, como foi o caso de Hamilton tentar ganhar a posição de Max, em Silverstone, e de Max procurar de todas as maneiras posicionar-se à frente de Hamilton em Monza.

Acredito termos, agora, um quadro mais amplo dos recentes acontecimentos na F1. Fabulosos do ponto de vista do espetáculo, ao reunir todos os ingredientes de uma edição épica do mundial, mas ao mesmo tempo um tanto inquietantes. A segurança dos carros e dos circuitos tem limites. O próximo round dessa luta de pesos pesados será, como citado, dia 26, no Circuito de Sochi.

Não pense, de forma alguma, que os ensinamentos de Silverstone e Monza irão arrefecer os ânimos entre os dois leões chefes de alcateia rivais da F1. O capítulo seguinte da novela seguirá exatamente o roteiro do representado na Inglaterra e Itália, apesar da tentativa dos comissários de passar a mensagem de que há um tribunal para julgar suas condutas.

Max e Hamilton vão se lembrar dele quando forem chamados, novamente, para dar explicações por seus comportamentos na pista.

Opinião

Minha visão dos acontecimentos? A exemplo da maioria dos pilotos e de profissionais da F1 com quem me comunico, não vi culpados pelos acidentes entre Max e Hamilton em Silverstone e Monza, muito menos atribuo proporção de responsabilidades, como fazem os comissários ao afirmar que determinado piloto foi “predominantemente culpado”. Os dois foram, para mim, típicos acidentes de corrida. Não puniria nem um nem outro piloto. Abraços.

Livio Oricchio

Livio Oricchio é um jornalista brasileiro e italiano, especializado em automobilismo, notadamente a F1, e em outra de suas paixões, a divulgação científica. Cobriu a F1 para o Grupo Estado de 1994 a 2013 e então para o GloboEsporte.com até 2019. Residiu em Nice, na França, durante boa parte da carreira, iniciada na F1 ainda em 1987. Colabora, desde então, com publicações de diversos países. Tem no currículo a presença em quase 500 GPs. Em boa parte desse espaço de tempo também foi repórter e comentarista de F1 das rádios Jovem Pan, Bandeirantes e Globo. Em 2012 ganhou a mais prestigiosa premiação da área, o Troféu Lorenzo Bandini, recebida em cerimônia na Itália.