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Exploração espacial: "Estamos saindo da fase de censo”

Divulgador científico Salvador Nogueira foi entrevistado neste domingo no Canal Livre da Band

Da Redação, com Canal Livre 22/05/2022 • 21:02 - Atualizado em 22/05/2022 • 21:37

Os avanços tecnológicos recentes apontam para uma evolução acelerada da compreensão das leis da natureza e do universo como um todo. Entrevistado do Canal Livre da Band nesta semana, o jornalista especializado em Astronomia e divulgador científico Salvador Nogueira, autor do Blog Mensageiro Sideral, destacou que o telescópio espacial James Webb (JWST) está entre as ferramentas revolucionárias na exploração do universo. 

Recentemente, o JWST obteve uma imagem que mostra parte da Grande Nuvem de Magalhães, galáxia satélite da Via Láctea, em um nível de detalhes nunca antes visto. O registro foi produzido como uma imagem de teste de um instrumento científico para o início de sua missão.

Salvador Nogueira afirma que a descoberta dos mais de cinco mil exoplanetas deixou de ser extraordinário. "Estamos saindo da fase de censo. O que o Telescópio Espacial Kepler fez, em especial, foi apontar para uma pequena região do céu. Observar 300 mil estrelas e fazer um censo. Olhando só aquele pedacinho você pode extrapolar para o resto das estrelas que você não está observando e calcular qual é a frequência dos planetas. A gente sabe a essa altura que tem planeta para qualquer lugar que você olhar. Para cada estrela da Via Láctea vai ter um planeta, senão mais", lembra. 

No Canal Livre, Salvador Nogueira também falou sobre o trabalho de uma sonda em Marte, avanços em experimentos com solo da Lua, corrida por novos lançamentos e expectativa de um brasileiro ir para uma viagem ao espaço. Além, claro, de vida fora da terra.  

Telescópios

Segundo ele, o Telescópio James Webb está sendo ajustado e vai surpreender mais que o Hubble. "O Hubble foi sonhado nos anos 1970 para voar nos anos 1990 e produziu ao longo de décadas os resultados que a gente viu. Chegou míope e, para quem acha que astronautas não servem para nada, foram que eles que foram lá para consertar a miopia dos anos 1990. Foi consertado em 1992 e ofereceu resultados espetaculares", aponta. 

Ele explica que o Hubble foi apontado para um ponto onde não se via nada para identificar o que havia "nas profundezas do universo" e que o James Webb "vai pegar carona nesse caminho". "Com um avanço que o Hubble não poderia fazer, que é a observação em infravermelho", explica

Salvador Nogueira diz que a nova observação trará amplos resultados. “A luz que vem das profundezas do universo, conforme ela viaja, vai se avermelhando. O universo está se esticando, a gente sabe disso desde o Hubble cientista. E quando a luz atravessa o espaço que está se expandindo, o comprimento da onda também se estica. Chega uma hora, que o que seria uma luz visível, seria ultravioleta, já virou infravermelho. E aí só consegue observar com telescópio de infravermelho", contextualiza. 

A ferramenta pode ajudar a decifrar as dúvidas sobre o surgimento do universo. "O que o James Webb vai fazer é olhar ainda mais longe e pegar o infravermelho, chegando ao universo bebê, o começo do universo e as primeiras estrelas. E, claro, que isso vai ser importante para gente entender a evolução do universo", ressalta. 

Perseverance 

As novas tecnologias também colocaram a humanidade cada vez mais perto de Marte. Recentemente, uma foto que foi registrada em um terreno do planeta rodou o mundo. A imagem, que parece uma porta, mexeu com o imaginário. Segundo a Nasa (Agência Espacial Norte-Americana), trata-se de uma rocha que escorregou e causou uma rachadura, do tamanho de uma folha de papel A4, dentro da cratera Jezero. 

"É uma coisa que geralmente acontece. Alguém pega uma imagem da Nasa, aumenta, dá uma ampliação gigante, e essas imagens têm uma resolução fantástica, e acha ali alguma coisa que parece", diz Nogueira. "Um rato, um rosto, que é mais antiga. Isso é fenômeno chamado pareidolia, que a gente vê quando olhar para nuvens. Mas isso mostra que há um interesse nas pessoas, independentemente de ser cientista ou não, de saber se estamos sozinhos no universo", destaca

Salvador ressalta que a sonda Perseverance, um rover planetário desenvolvido pela Nasa, foi lançado em 30 de julho de 2020 com destino a Marte, justamente para descobrir vida no planeta. "Vale dizer que a sonda, Perseverance, está ali para buscar sinais de vida passada em Marte. Não homenzinhos verdes, mas, quem sabe, processos ali fossilizados de bactérias antigas que podem ter vivido em Marte no passado", pondera. 

A sonda entrou em uma nova fase. "Os cientistas colocaram ela em um lugar mais seguro, mas perto de onde a gente quer ir. O rover tem ferramentas para dentar identificar assinaturas moleculares, pequenas moléculas, detectadas por expectógrafos e outros instrumentos, que podem sinalizar uma presença de vida no passado de Marte. Seria uma grande descoberta. Estamos indo para lá"

Salvador cita o divulgador científico Carl Edward Sagan, que dizia que "afirmações extraordinárias exigem evidências extraordinárias", em uma análise equilibrada sobre a descoberta de vida fora da Terra. 

Ele lembra, entretanto, que já há dados que mostram ser possível a colonização de Marte. "Morar em Marte hoje seria pior do que morar em qualquer lugar da Terra. Se for morar na Antártida sozinho é melhor do que morar em Marte. É um ambiente realmente muito inóspito, apesar de no Sistema Solar ser um ambiente que mais se aproxima da Terra", afirma. "Uma temperatura muito fria, uma atmosfera muito rarefeita, intensidade de radiação imensa. Isso exigiria sistemas de proteção. Para morar lá, toda vez que sair do módulo de habitação tem que colocar uma roupa de astronauta". 

“É desconfortável? É. É inabitável, não”. 

Ética espacial

O jornalista especializado conta que já há um dilema ético em discussão para o momento em que a vida, mesmo que microscópica, seja eventualmente descoberta em Marte ou outro planeta. "Não é por que podemos (colonizar) que devemos. Se Marte não tiver nada, e é uma possibilidade, considero sinal verde para que se torne um lugar para que os humanos possam habitar. Se houver vida, um micróbio que seja, no presente de Marte, a gente vai ter que parar e pensar. Decidir se devemos ou não", afirma. 

Sol 

O tempo de vida das estrelas é limitado e o Sol como uma anã amarela tem 10 bilhões de anos e o sistema solar tem 4,5 bilhões de anos. O Sol vai se expandir como gigante vermelho e engolir os planetas. Salvador afirma que o equilíbrio da estrela com a Terra é tênue. 

"Ficou mais triste em tempos recentes. Porque os cientistas descobriram que o equilíbrio da para a Terra se manter como um planeta habitável é muito delicado e o Sol, embora tenha uma vida relativamente estável ao longo desses 10 bilhões de anos, ele vai aumentando pouco a pouco de brilho e ao longo de bilhões de ano essa mudança de intensidade de radiação vai fazendo a diferença".

O fim da Terra, com isso, é inevitável. “Quando? Em um bilhão de anos”, tranquiliza. 

Buraco Negro

Um consórcio internacional de cientistas divulgou em 12 de maio a primeira foto de um buraco negro localizado no centro da nossa galáxia, a Via Láctea. A imagem do Sagitário A*, um buraco negro supermassivo a cerca de 26 mil anos-luz da Terra, é mais um importante marco para a ciência encabeçado pelo Event Horizon Telescope, uma rede que reúne 11 radiotelescópios espalhados pelo mundo.

"É um buraco em que as coisas entram lá e não voltam mais. As pessoas têm dificuldade de assimilar. O primeiro a ter essa dificuldade foi Albert Einstein. Usando a teoria do Einstein, Karl Schwarzschild enviou a teoria e Einstein pensou 'muito legal essa solução aqui, se comprimir uma estrela e tal, vai virar um buraco negro, mas isso aqui não deve acontecer na natureza. Ele foi entusiasta, mas achou que não ia acontecer", afirma Salvador Nogueira. 

O jornalista diz que os registros recentes vão ajudar a compreender o imenso fenômeno. “A gente só foi perceber que acontecia mesmo quando a gente começou a entender como as estrelas funcionam e como as estrelas morrem, em particular as estrelas com alta massa. As estrelas muito grandes. A gravidade tem um poder tal, a hora que para de produzir energia. A estrela é um sistema em equilíbrio. Você tem uma produção de energia no núcleo, com fusão nuclear. Então, os átomos estão grudando uns nos outros e jogando energia para fora e tem a gravidade querendo esmagar ela. Energia para fora, gravidade querendo esmagar, ela fica estável daquele tamanho. Quando acaba a capacidade dela de produzir energia dentro, só tem a gravidade. A gravidade vai esmagar. Tem estrelas que tem uma massa tal, que se deixar a gravidade esmagar, ela vai vencer todas as outras forças da natureza e aquela matéria vai esmagar a um ponto que vai se formar um buraco negro”, detalha. 

Salvador destaca que quando se faz descobertas como essa, toda a ciência é alterada. "Está te dando uma consolidação das leis da natureza que vai te permitir uma série de aplicações práticas. Ninguém pede um Uber ou usa o Waze se Einstein estivesse errado", compara.