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Provável novo presidente do Peru é "ideologicamente híbrido", diz cientista político

Mario Riorda traçou perfil de Pedro Castillo, ligado à esquerda, e analisou cenário político na América Latina

Da Redação, com BandNews TV 10/06/2021 • 00:34 - Atualizado em 10/06/2021 • 15:03
O professor e cientista político Mario Riorda foi entrevistado no Ponto a Ponto
O professor e cientista político Mario Riorda foi entrevistado no Ponto a Ponto
Reprodução TV

Com a provável vitória de Pedro Castillo sobre Keiko Fujimori para assumir a presidência do Peru, Bolsonaro já lamentou os resultados prévios no pleito para um candidato de esquerda na América Latina. O professor e cientista político argentino Mario Riorda prevê uma relação conflituosa entre os dois governos, apesar de não considerar o peruano “um puro representante de esquerda” e o vê como ideologicamente híbrido, principalmente em relação a algumas políticas sociais. 

“Não é tão fácil localizar Castillo como um presidente puramente de esquerda. Em termos de políticas sociais, é tão ou mais conservador que o próprio Bolsonaro. É uma pessoa antidireitos, no sentido de que se opõe ao casamento igualitário, aos direitos das comunidades LGTBI, se opõe, em geral, à legalização da maconha. Então, creio que é um presidente ideologicamente híbrido. Claramente, em muitos aspectos, é de esquerda por seus apoios. Por outro lado, em sua agenda social, é muito parecido com Bolsonaro”, analisou Riorda em entrevista ao Ponto a Ponto, comandado pela jornalista Mônica Bergamo e o cientista político Antônio Lavareda na BandNews TV nesta quarta-feira (9). Veja entrevista na íntegra abaixo.

Para ele, a tensão diplomática com o Brasil vem do fato de que vários dos apoiadores de Castillo são apoiadores do chavismo na Venezuela. Bolsonaro já se referiu a Castillo como “um cara do Foro de São Paulo” - organização que reúne partidos de esquerda na América Latina e constantemente criticada pelo presidente e seus apoiadores. 

O cenário que o novo presidente encontrará não será nada fácil. As particularidades da política peruana, que não possui um Senado, aliadas à polarização eleitoral e o fato de os últimos cinco presidentes do país terem sido presos por casos de corrupção dificultam ainda mais a governabilidade de Castillo – que já se declarou vitorioso na eleição, enquanto sua oponente, Keiko Fujimori, pede a anulação de 500 mil votos.

“Geralmente quem ganha, enfrenta a todos os grandes grupos midiáticos. Além do mais, essa fragmentação é mais grave porque há uma atomização, onde nenhum partido político não constituiu sequer uma minoria consolidada. O partido que mais obteve votos não superou os 15%. Com o perigo onde o presidente pode dissolver o parlamento e também o parlamento pode deixar o cargo de presidente vago”, pontuou Riorda.

O professor ainda lembrou que as mazelas sociais da sociedade peruana se agravaram com a pandemia de covid-19, onde os dados revisados elevaram o número de mortes para mais de 180 mil – maior índice de óbitos em proporcionalidade pelo número de habitantes do mundo. 

Além da crise política, econômica e social, Riorda diz que o Peru tem tensões internas únicas. Ele aponta que o país é o maior produtor da cocaína do mundo e tem sua economia fortemente baseada na mineração, que Castillo não apoia prioritariamente. A atividade é ligada à grandes empresas, o que pode ser outro ponto de conflito.

O cientista político vê uma tendência de aumento da polarização na América Latina e analisa que as pessoas tem votado na chamada “segunda melhor opção”. 

“Os cidadãos, muitas vezes, não sabem de que coisas gostam, não sabem o que os define como identidade, mas sabem do que não gostam e sabem o que não representam sua identidade. Então, terminam votando a quem garante ser o oposto mais perfeito das coisas que causam o ódio”, disse para explicar as posturas dicotômicas, sem pontos de moderação. 

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