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Artigo: Ciência para resolver problemas da sociedade

Texto escrito por Julliane Silveira, coordenadora de comunicação do Parque Tecnológico

Julliane Silveira 26/07/2021 • 16:06 - Atualizado em 26/07/2021 • 16:07
Marco Antônio Raupp faleceu no último sábado (24)
Marco Antônio Raupp faleceu no último sábado (24)
Divulgação/Parque Tecnológico

“Pode me chamar de professor”, orientava Marco Antonio Raupp aos interlocutores em dúvida de que título usar para se referir ao ex-ministro da Ciência e Tecnologia (2012-2014), doutor em matemática pela Universidade de Chicago e livre-docente pela Universidade de São Paulo, que liderou as maiores e mais importantes instituições de ciência e tecnologia do Brasil.

De fato, ninguém saía de sua presença sem a reflexão de que a educação é um instrumento de transformação da sociedade. Tampouco sem papéis com alguns rabiscos e indicações do que dizer ou fazer e sem receber uma aula de história da ciência, da industrialização ou de como se faz política (frequentemente tudo isso ao mesmo tempo).

Com excelente oratória, o professor Raupp trazia sempre em seu discurso a importância de conectar academia e indústria para a gerar impacto no sistema produtivo do Brasil. Ele se definia como um cientista aplicado, que usava a ciência para resolver problemas que interessavam à sociedade. Incomodava-se com a distância entre a universidade e o mercado. 

Quando nem se falava em ambientes de inovação no Brasil, liderou o processo de criação do Parque Tecnológico São José dos Campos, um dos primeiros espaços desse tipo do país, instalado na cidade em 2006. “Vim para São José por uma eventualidade e criei três dos meus filhos aqui. Tive a oportunidade de contribuir em duas grandes instituições da cidade: Inpe e Parque Tecnológico”, contava.

Enquanto ministro e no tempo em que esteve à frente do Parque, articulou a criação de mais de 1.300 novas vagas de ensino superior públicas em São José dos Campos, cidade onde viveu por 36 anos. A maioria em universidades que foram instaladas no Parque, junto às empresas.  “Quem tem que gerar produtos é a empresa, mas ela precisa contar com o apoio da universidade. É fundamental uma interação entre os produtores de conhecimento e aqueles que querem transformar o conhecimento em bens de valores econômicos”, sempre argumentava.

Também como ministro, criou a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), em 2013, inspirado pelos resultados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na agricultura brasileira. Queria fazer o mesmo pelo setor industrial brasileiro.

A memória minuciosa e a precisão com os números eram notáveis desde o início de sua carreira, como professor da Universidade de Brasília (UNB). De lá, passou por diversos centros de pesquisa: Departamento de Matemática Aplicada do IME/USP, Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), Fundação Parque de Alta Tecnologia de Petrópolis e Instituto Ciência Hoje.

Foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Agência Espacial Brasileira (AEB).

Como diretor-geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), de 1985 a 1989, foi convencido pelos meteorologistas da instituição a criar o Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC). Também foi responsável pelo acordo de cooperação entre Brasil e China, em 1988, para o desenvolvimento dos satélites CBERS-1 e CBERS-2, pioneiro entre as parcerias espaciais somente de países do hemisfério Sul. Por esse feito, recebeu no mesmo ano o título de Comendador da Ordem de Rio Branco, concedido pelo Ministério das Relações Exteriores. “Um cientista com título da diplomacia”, orgulhava-se. 

É que cientista tinha sido uma palavra tabu para Raupp quando criança. Seu pai queria que ele fosse advogado, afinal “não existia cientista no interior do Rio Grande do Sul, ninguém sabia como isso poderia acontecer”, brincava o professor. 

Marco Antonio Raupp nasceu em 9 de julho de 1938 em Cachoeira do Sul, a cerca de 200 km de Porto Alegre (RS). Saiu da cidade para cursar o ensino médio na capital, onde também fez faculdade de física. Por indicação de um professor, foi para Brasília fazer mestrado em matemática, em 1962. Com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), fez doutorado na mesma área nos Estados Unidos. 

Todo legado científico não rompeu seus laços com a vida no campo. Raupp mantinha uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde criava gado e cultivava milho. Nos últimos anos de vida, passava os fins de semana na fazenda, a fim de se reabastecer para a intensa agenda da semana.

Foi em uma viagem de volta da propriedade que Raupp sofreu um grave acidente, em 2016. Ficou em coma, foi entubado, passou por cirurgia delicada no abdômen. Recuperou-se totalmente e retomou as atividades no Parque Tecnológico, de onde foi diretor-geral até junho de 2021. 

Uma rotina que era baseada em costurar parcerias, liderar equipes e atrair aliados, o que fazia de forma natural, alternando temas políticos tensos, com piadas e “causos”, com o objetivo de seduzir todo tipo de ouvinte. Sabia cultivar a admiração de pessoas de todos os posicionamentos políticos, descontrair e exigir atitudes de forma incisiva e inquestionável. 

Para suas equipes, entrar em sua sala era um momento de descompressão: depois da pauta oficial do encontro, Raupp trocava impressões sobre as gestões públicas, seus acertos e erros. O funcionário sempre ganhava uma análise lúcida do cenário político.

Nessa sala, o professor mantinha em destaque na parede a foto de seu encontro com Barack Obama (ex-presidente dos EUA) e outra com Angela Merkel (chanceler da Alemanha).

Marco Antonio Raupp morreu em 24 de julho de 2021 de insuficiência respiratória aguda, decorrente de um tumor cerebral. Deixa a esposa, Elisabeth Alves Mendonça, sete filhos, três genros, quatro noras e 13 netos.

*Julliane Silveira é coordenadora de comunicação do Parque Tecnológico

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