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Death’s Door, Vida e Morte além dos jogos

Jogo publicado pela Devolver Digital concorre a um dos maiores prêmios da indústria de jogos

Eddy Venino - Equipe BANDx 08/12/2021 • 13:24
Divulgação
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Devolver Digital

Escapar da morte talvez seja uma das maiores ambições do ser humano. Não se sabe o que existe do outro lado - se é que tem um outro lado - e com esse pensamento, através da arte, feitos grandiosos ou perpetuação de um legado - muitas vezes através da família - o ser humano pode vislumbrar um pouco do que é ser imortal.

Em Death’s Door, desenvolvido pela Acid Nerve (Titan Souls) e publicado pela Devolver Digital, controlamos um Corvinho coletor de almas que trabalha para uma “empresa” onde o chefe controla portas dimensionais por onde os coletores de alma atravessam para cumprir seus contratos como ceifadores de vidas. Entretanto, algo de anormal tem prolongado a vida de todos naquele universo e há muito tempo nenhuma alma é coletada.

Esse é o ponto de partida para um dos jogos que mais se destacou em 2021. Bem executado, com cenários encantadores e uma história consistente, Death’s Door nos entrega uma experiência redondinha, e é um jogo que vale a sua atenção. Claro que a grande mídia deu uma atenção a mais a esse jogo. Não por acaso ele está concorrendo a diversos prêmios, inclusive como ‘Indie do Ano’ no The Game Awards, uma das maiores premiações do setor.

Mas outras ideias me ocorreram durante a jogatina. Embora seja um jogo redondinho, como eu disse acima, ele não se arrisca muito. Então, você não vai encontrar nada de inovador ou revolucionário em Death’s Door. O que não apaga seu brilho, mas que me fez ter outras reflexões acerca do game. 

Seu tema principal é a morte, e é sobre isso que irei falar.

“De que adianta? Se vamos ter que morrer no final?”

Através de um corvinho ceifador de vidas, vemos um mundo abalado pelo acúmulo de almas no mundo físico. A ordem natural não está seguindo e uns poucos detém um grande poder devido a isso - muitas vezes com motivações egoístas. Os mais fracos ou aqueles que não compactuam com a situação, vivem de forma precária, deixando suas antigas vidas para se proteger do mal que cresce.

Como um bastião do equilíbrio, nosso corvinho, armado com sua espada e habilidades especiais, encara os desafios para tentar restabelecer a ordem a aquele mundo.

Com o desenrolar da história, o jogo nos apresenta perspectivas diferentes sobre a morte: alguns a desejam para que possam pôr um fim em uma vida que já não tem significado; outros não conseguem desapegar de familiares ou do poder que a imortalidade proporciona; e ainda há aqueles que só querem aproveitar a vida intensamente, sabendo que um dia ela pode acabar. E são essas reflexões que quero expandir aqui.

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“Sem a morte a nossa vida não floresce"

O corvo pode ser um sinal de mau agouro. No jogo, nosso corvinho é a própria morte, mas acaba com a existência daqueles que querem desequilibrar a harmonia natural. Ao dar fim a imortalidade deles e abrir as portas para que as almas possam descansar, o nosso camaradinha permite que todos possam desfrutar de uma vida que, embora curta, seja plena.

Nós, humanos, sempre questionamos a morte e o que pode haver depois que nosso corpo desliga. Religiões, pensadores, cientistas e artistas, desde sempre tentam encontrar (ou impor) uma resposta para essa questão.

Este é um questionamento importante, mas prefiro me focar na vida que temos aqui. Nos preocupamos tanto com o que há depois, que nos esquecemos de viver, de aproveitar as experiências que estão à nossa frente. A crença numa existência além-vida, faz com que as pessoas se limitem, não vivenciando plenamente os seus desejos. E com isso, preconceitos e discriminações são gerados, porque as pessoas que limitam em vida, também querem impor essa limitação àqueles que são livres. E assim, o respeito pelo próximo, que muitas religiões pregam, é deixado de lado.

Ao crer que sua vida tem um tempo curto, suas amarras irão se romper. Você amará com mais intensidade; dará valor as amizades verdadeiras e deixará sem remorso aqueles que lhe causam mal; saberá planejar melhor a sua caminhada e assim traçar seus objetivos; tentará encontrar valor em todos as suas ações e agregar a vida daqueles que ama e não prejudicar seus sonhos; você irá ter respeito pela sua vida e dos outros, sendo próximo ou não.

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“Devemos rejeitar aqueles que nos levam para um futuro sem esperança.”

Existem pequenos paralelos que podem ser traçados entre o jogo e nossa realidade: minorias afetadas pela ganância de governantes autoritários; crenças mal interpretadas que prendem a mente; natureza sendo afetada por forças externas; acordos corruptos que beneficiam aqueles no comando; ambições mascaradas de amizade que resultam em traição. Todas ligadas a intencionalidade de prejudicar a vida de outras pessoas para ganho pessoal. 

Não existem respostas simples para nossa existência, mas seguir cegamente líderes fajutos ou alimentar relações tóxicas, com certeza não é um bom modo de aproveitar a vida. Abandone aquilo ou aqueles que te limitam e/ou fazem mal. Assim como no jogo, sua alma pode se perder e ser corrompida ao dar ouvidos para aqueles que só querem te reduzir para que a existência deles valha a pena. Como é dito no jogo:

“A verdadeira grandiosidade pode lhe custar a alma…”

Me apropriando desta fala do jogo, lhes digo que aqueles que tentam viver plenamente sua existência terrena, irão encarar obstáculos na forma de pessoas, instituições, preconceitos estruturais e de diversas outras fontes que tentarão te dizer que você não pode viver do jeito que você vive. Vão te desrespeitar e tentar te enquadrar em padrões. E para continuar sua caminhada neste plano até seu fim, para ser grandioso em sua vida, você terá que batalhar.

Refletir sobre a morte, sobre o nosso fim, nos ajuda a experienciar a vida com mais fervor. Nos faz ter razões mais concretas para realizar nossas escolhas. E isso pode se aplicar a sua carreira profissional, onde morar, seus hobbies, amizades e a pessoa (ou pessoas) que você escolhe para amar e caminhar ao seu lado.

Porque, diferente do joguinho, não temos vidas extras ao morrer para um chefão. Então ame e dê valor àqueles que realmente estão ao seu lado.

Death’s Door está disponível para PC, Nintendo Switch, Playstation 4, Playstation 5, Xbox One e Xbox Series S|X.

[ twitter: @eddyvenino ]