Jornal da Band

Carnaval de Salvador tem axé, blocos afro e tradição

Nos últimos anos, o número de atrações em trios elétricos que desfilam para a "pipoca" vem aumentando. Foram cerca de cento e cinquenta na folia passada

Por Ramon Ferraz

Carnaval de Salvador tem axé, blocos afro e tradição
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A pipoca toma conta do Carnaval de Salvador! E, se é folião-pipoca, não precisa de abadá, nem de corda para separar quem é do bloco. É só entrar na avenida e se divertir como quiser.

Nos últimos anos, o número de atrações em trios elétricos que desfilam para a "pipoca" vem aumentando. Foram cerca de cento e cinquenta na folia passada.

E uma música bem típica passa a mensagem para mundo de que o protagonista da festa é folião, que decide o que vai dançar, onde e como vai curtir. Ele é a própria festa. 

Ao longo da história, houve tentativas de mudar essa essência, mas o carnaval de rua sempre venceu.

Nas primeiras décadas do século vinte, por exemplo, os mais ricos comemoravam a folia dentro de clubes e teatros, inspirados nas festas europeias.

“A música europeia não satisfazia o espírito do Carnaval talvez, então entra o maxixe, entra o samba, e a rua e o salão começam a se comunicar. Acaba que o Carnaval de rua vence, vence porque é muito mais visceral, orgânico, porque ele é inventado a todo instante”, explica a antropóloga Goli Guerreiro.

Moraes Moreira, o primeiro cantor de trio elétrico da história, cantava: "Eu sou o carnaval a cada esquina".

E, de esquina em esquina, o Carnaval, que nasceu espalhado por vários bairros de Salvador, passou a se concentrar no centro histórico. Entre os anos 70 e 80, a festa se estendeu para a essa região do Campo Grande e que se tornou o circuito mais tradicional da folia no formato que conhecemos hoje.

É verdade que houve um esvaziamento com ida de blocos para o circuito Barra-Ondina. Mas, nos últimos anos, muitos artistas voltaram a desfilar no centro da cidade, principalmente para o folião-pipoca.

O fortalecimento do circuito tradicional é resultado de uma luta que também é dos blocos-afro, os homenageados dessa edição da folia, porque cinquenta anos atrás, no Curuzu, comunidade popular de Salvador, nascia a primeira agremiação carnavalesca formada só por negros, o Ilê Aiyê.

Neste ano, mais de 130 entidades de matriz africana serão apoiadas pelo poder público.

“É muito bonito, muito legal, hoje você ter bloco-afro no Brasil todo, você ter essa revolução dos tambores espalhada pelo mundo”, diz Vovô do Ilê, que é presidente do Ilê Aiyê.

A pipoca, o circuito tradicional, os blocos afros. Tudo está interligado com a experiência do carnaval de rua, da mistura, dos encontros.

“Do entrudo original lusitano que chegou aqui no Brasil lá pelo século dezenove e se transformando nesse grande fenômeno que é o carnaval de rua, aqui em Salvador começa a perceber que talvez precise voltar às suas origens, do trio elétrico, da guitarra baiana, mas, essencialmente, o carnaval é o grande momento do povo preto”, diz o historiador Ricardo Carvalho.

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