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Líderes brasileiras levam vivência da crise climática à COP

Representantes de comunidades afetadas por catástrofes ambientais, eventos extremos e desigualdade apresentam a realidade que enfrentam ao círculo de negociações climáticas em Dubai.

Por Deutsche Welle

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Pela primeira vez numa Conferência do Clima das Nações Unidas, Luciana de Oliveira se sente dentro de uma cidade cenográfica. Foi num dos prédios de concreto com fachadas coloridas dentro da COP28 em Dubai que ela diz ter vivido um momento de grande revolta: o encontro com representantes da mineradora Vale.

"É muito sofrível ver numa conferência que deveria discutir o cuidado com o planeta a presença de mineradoras, causadoras de tragédias e conflitos. Representantes da Vale desfilam entre nós como se não pesasse sobre eles a vida de milhões de pessoas atingidas", diz Oliveira à DW.

Oliveira representa centenas de pessoas da foz do rio Doce, no Espírito Santo, atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão de Mariana, Minas Gerais. Em 2015, a estrutura da mineradora Samarco, controlada pela Vale e BHP, colapsou, matou 19 trabalhadores imediatamente e mudou o cotidiano de cerca de 1 milhão de pessoas.

"Viemos aqui porque queremos ser ouvidos, queremos incidir sobre as negociações. Porque vemos que o debate é sobre economia, repasse financeiro, qual país vai doar, mas o dinheiro nunca chega para as populações, mulheres e crianças que estão mais expostos às tragédias ambientais, às mudanças climáticas", afirma Oliveira.

Ela faz parte de uma delegação de brasileiras que formam a Rede Vozes Negras pelo Clima, apoiada pela Anistia Internacional. A estratégia é levar aos ouvidos dos negociadores pautas como justiça climática antirracista, mostrar que a participação de mulheres é imprescindível para que políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas parem de pé.

"Ligar o ar-condicionado não resolve"

Pelos quilombos que tem andando, Selma Dealdina viu solos secos que não recebem chuva há quase um ano. Ela tem medo de que porções de terra no Brasil fiquem cada vez mais parecidas com as paisagens áridas que tem avistado em Dubai.

"As pessoas não podem achar que vão ligar o ar-condicionado que vai resolver. Não está mais chovendo como antes, não dá mais pra plantar. Ou chove tanto e ficamos alagados de catástrofes. Não é possível que esteja acontecendo tudo isso e que ninguém queira fazer esse debate", diz Dealdina, da Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq).

A líder representante de comunidades tradicionais se preparou para participar da conferência. Com apoio do Fundo Casa Socioambiental, ela fez um curso para entender como funcionam as negociações diplomáticas e traz na bagagem a vivência de quem enfrenta os impactos do desequilíbrio ambiental na pele.

"O quilombo onde moro, no Morro da Arara, é muito impactado pela monocultura de eucalipto. A maioria das comunidades têm o nome do córrego que corria no local, mas eles não existem mais, estão secos", afirma Dealdina sobre a região onde vive, em Espírito Santo.

A ciência aponta que mulheres e crianças estão entre os grupos mais afetados pela degradação ambiental e pelas mudanças climáticas. Um estudo recente publicado na revista Natural Hazards conclui que as mulheres são severamente impactadas, principalmente as que vivem na zona rural e dependem da agricultura. Essa atividade muitas vezes é a única fonte de sustento de famílias e comunidades já assoladas pela pobreza.

Da Amazônia seca para Dubai

Antes de viajar para a COP28, Iremar Ferreira acompanhou com preocupação o recuo rápido do lago Maravilha nos fundos de sua casa, em Porto Velho, capital de Rondônia. Próximo ao rio Madeira, que baixou a níveis recordes, o lago é fonte de sustento para famílias de pescadores – muitas lideradas por mulheres.

"Nunca esteve tão quente e nunca esteve tão seco", conta Ferreira, coordenador do Instituto Madeira Vivo e membro do Fórum Mudanças Climáticas, sobre a porção da Amazônia onde vive e atua.

Apesar de toda a emergência climática vista na Amazônia e em diferentes partes do globo, não dá para esperar muita coisa de uma conferência dirigida por um chefão da indústria do petróleo, argumenta Ferreira, referindo-se ao sultão Al-Jaber, que preside as negociações climática da COP28 e ao mesmo tempo dirige a estatal petroleira dos Emirados Árabes.

"Mas viemos com uma agenda para pautar o 'não' ao petróleo e gás na Amazônia. Isso foi uma questão que batemos forte na cúpula que aconteceu em Belém e que levaremos com tudo para a COP30, que será no Brasil", detalha.

Por enquanto, o governo não parece disposto a atender o apelo. No primeiro dia de COP, o ministro de Minas e Energia Alexandre Silveira anunciou a entrada do Brasil em um grupo de observadores da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a Opep+. Em entrevista à DW, Silveira defendeu a abertura de novas frentes de exploração do combustível fóssil na Margem Equatorial, região também chamada de Foz do Amazonas.

"Sinto medo"

Fluente em inglês e mais acostumada a eventos internacionais, a ativista e empreendedora social Kamila Camilo muitas vezes ajuda outros participantes brasileiros da sociedade civil a entender o idioma. "É tão difícil entender este lugar. Faz três anos que eu frequento COPs e, ainda assim, é difícil", diz Camilo à DW.

Camilo diz ter feito há pouco tempo a conexão entre as mudanças climáticas e o impacto no dia a dia. O estalo veio depois da leitura do último relatório do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, IPCC, de 2022.

"Cada informação que lia foi me causando muita ansiedade. Eu sinto palpitação, a vista fica escura, sinto medo, vontade de me encolher", relembra Camilo sobre as principais conclusões do documento, que traz um resumo assustador do quanto a humanidade tem sobrecarregado o planeta com suas emissões de gases de efeito estufa.

Ao sair da periferia de São Paulo para um novo endereço, Camilo fez a escolha observando risco de alagamento e arborização. "Nesta onda recente de calor, enquanto a avenida Paulista batia os 40 graus, o meu bairro registrava 32 graus", diz.

Na periferia de Recife, Lídia Lins ainda não conseguiu se mudar de um dos bairros que mais alagam com chuvas intensas. A última catástrofe, no verão passado, deixou 50 mortos. Com o aumento da frequência dos eventos climáticos extremos à medida que o planeta aquece, a advogada e ativista foi à COP28 para levar as vozes desses moradores.

"Não há preparação da cidade para enfrentar essas catástrofes. Quem sofre são as pessoas que estão dentro das favelas, na periferia, que é a população negra, que são as mulheres", ressalta.

Autor: Nádia Pontes

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