Primeiro Jornal

Vida no sertão paraibano

Entenda como cidades do interior do nordeste brasileiro estão recebendo e cuidando de refugiados indígenas combatendo a xenofobia

Evandro Almeida Jr, no 1º Jornal 21/09/2021 • 06:16 - Atualizado em 21/09/2021 • 06:40

Moya, de 9 anos, e seu sobrinho Emerson Zapata, um bebê de 7 meses (julho de 2021), são as únicas crianças warao num abrigo em Campina Grande. A cidade fica a uma hora e meia de carro da capital - é a segunda mais importante e populosa do estado da Paraíba com 500 mil habitantes. Selena perdeu o pai há um par de meses. A morte não teve a ver com a Covid-19 e sim de causas naturais. Que se houvesse acompanhamento médico, poderia ter sido evitada. 

Doenças comuns como diabetes podem matar se a pessoa deixar de fazer tratamento, não se alimentar direito e passar por condições extremas de estresse e cansaço -- tudo que vive um refugiado. Foi tudo isso que acabou causando a morte de José Moya.

A menina de 9 anos tem depressão… Por falta de atividades e as escolas suspensas devido à pandemia passa o dia inteiro no celular. Vive o luto diariamente. O pai dela faleceu no abrigo em que vivem. O quarto em que ficava com sua família está fechado. Há cruzes vermelhas pintadas do lado de fora e seu nome estampado na porta. Ninguém entra ali. Acreditam que o espírito dele ainda habita aquele local. Selena vê aquilo diariamente. Mas lida com essa dor do jeito dela. “Ela tem um senso de humor muito legal. Sabe lidar com isso. Isso é algo comum deles como povo. Que é o que faz lidar com alguns lutos. Eles por si só, são pessoas “enlutadas”, deixaram a terra deles. Eles trazem essas perdas de lá para cá”, conta Raif Nóbrega Vidal, psicólogo da secretaria de assistência social de Campina Grande (Semas). 

A guarda ficou compartilhada entre sua irmã Josefina e seu irmão José Perez, ambos maiores de idade. Eles que cuidam dela a partir de agora. 

Emerson (7 meses) é brasileiro e filho de Josefina com Enriquer Zapata. Ficou a maior parte do tempo sentado numa rede ou no colo da avó, usando uma máscara de pano como mordedor. Seus pais se conheceram durante a travessia no Brasil e vivem em Campina desde janeiro de 2020. Mesmo vendo seus compatriotas mudando de cidade ou estado, o desejo de Enriquer é permanecer ali. “Eu gosto da cidade, aqui consigo trabalhar e recebemos ajuda. Temos assistência… Em outros estados que passamos para se abrigar tínhamos que pagar, para comer também. Nada vinha de ajuda, tínhamos que pedir dinheiro para comprar até leite para as crianças”. 

Ele também ajuda na criação de Selena e diz que já avisou as equipes de assistência sobre o comportamento alimentar dela que segundo ele mudou desde que o pai morreu. “Ela só come manga e bebe Coca-Cola, nada mais. Não quer comer mais nada só isso. Já avisei as equipes e estão tentando ajudar.” Enriquer também traz um ponto que os indígenas do abrigo trazem em comum: “às vezes falta comida no abrigo.”

Missão de apoio

Assim como em João Pessoa, Campina Grande teve que “se virar nos 30” para criar um plano de acolhida. Barreiras como o idioma e a compreensão de costumes foram prejudiciais nesse início. No entanto, a resposta veio. No início eram poucas famílias e algumas delas não se bicavam. O que só foi percebido quando a prefeitura os colocou juntos num só abrigo. Foi necessário alugar residências privadas para algumas famílias, enquanto outras ficavam nos abrigos. A situação dos Warao na cidade a princípio foi bem acolhedora. Segundo relatos de moradores da cidade que não quiseram se identificar, eles recebiam muita doação. Nos faróis durante a “coleta” chegavam a receber até 400 reais num único dia. O povo campinense se solidarizou com eles. Até começarem a ver umas situações um pouco inusitadas.

Os Warao se vendo com dinheiro na região central da cidade pediam táxi para se deslocarem até o abrigo no bairro de Jeremias, periferia da cidade. Isso incomodou e muito a população da cidade e inclusive seus vizinhos. E não parou por aí… Alimentos que eram doados pela secretaria de assistência social aos indígenas eram muitas vezes colocados na calçada do abrigo porque não eram alimentos que eles estavam acostumados a comer. 

De acordo com Sebastian Roa, associado Sênior de Proteção e Soluções Indígenas da Acnur, isso é comum de acontecer. “Os atores locais ajudam de forma solícita e doam alimentos. No entanto, muitas vezes isso ocorre sem conversar com as lideranças para saber o que eles realmente consomem. Se eles não comem tal coisa, muito dificilmente vão falar. Eles descartam o que aos olhos da população pode causar, por falta de comunicação entre assistentes e sociedade, atritos”. 

Por conta disso, cresceu uma xenofobia contra eles. Atrelada ao preconceito e falta de entendimento da presença Warao no município afeta e muito a integração deles. Fazendo com que alguns migrassem. 

Uma hipótese da Semas para essa migração é que mesmo tendo ajuda e auxílio por parte da secretaria e ONGs parceiras, os warao seguem migrando para locais que possam ter uma melhor coleta. “Eles mudam se percebem que a população deixou de ajudar ou se acostumou com a presença deles. Observamos que quanto mais tempo eles ficam num local e recebem ajuda a população percebe isso e deixa de dar dinheiro para eles. Eles (cidadãos) entendem que se a prefeitura dá cesta básica e abrigo, já é suficiente”, relata Uélma Alexandre do Nascimento, diretora de Proteção Social Especial de Média e Alta Complexidade.

A coleta persiste porque alguns itens não são entregues por meio de assistência. Como fraldas aos bebês ou até mesmo doces, refrigerantes ou cervejas - que costumam beber em suas festas. 

O efeito disso é que só esse ano no único abrigo da cidade passaram 86 indígenas venezuelanos. Destes, 43 adultos, 10 bebês (um nascido no abrigo de parto natural), 23 crianças e 10 adolescentes. Hoje restam apenas 8 indígenas. E esse fluxo permanece ali, em cidades próximas, a no máximo 6 horas de viagem entre elas. “O fluxo de migração acontece na própria região, ou seja, mesmo sendo outros estados, são pontos próximos então cada família fica num lugar e fica mais fácil de se encontrarem também”, explica Rita Santos, professora do Programa de Pós-Graduação de Antropologia da Universidade Federal da Paraíba.

Planejar e replanejar 

Percebendo essa migração a secretaria reavaliou seus caminhos e inseriu os warao em todos os projetos possíveis de assistência. “No entanto, a pandemia tem atrapalhado inclusive a integração deles com a população nesses projetos que em grande parte são presenciais”, explica Thaís de Lima e Silva que é coordenadora da equipe de acompanhamento ao migrante venezuelano Warao na cidade. Todos os Warao que passaram na cidade tiveram crianças foram matriculadas na secretaria de educação, foram inscritas no CADÚnico e nos serviços de transferências de renda como Bolsa Família e Auxílio Emergencial.

“A migração atrapalha, assistentes sociais vão em busca das crianças para acompanhamento e quando vê já migraram. Até fazemos o planejamento, mas eles saem”, conta Samara Nóbrega de Almeida, advogada da Semas.

Cuidados exclusivos

E lembra da queixa de Enriquer? "Às vezes falta comida no abrigo.” Essa falta de comida na verdade é porque não recebem como outros grupos de cidades vizinhas, como João Pessoa - que leva cestas básicas semanais. Em Campina as cestas são enviadas a cada 15 dias e são trabalhadas de acordo com a necessidade de cada família. Isso foi discutido com o cacique Argenis à época responsável pelo abrigo e a nutricionista Janine Chaves de Castro

Durante a reportagem, não encontrei comida nas prateleiras ou nos quartos - onde costumam guardar também. E durante a entrevista tanto José Perez como Enriquer Zapata diziam faltar alimento. Outros indígenas mais velhos faziam gestos de mão na boca sinalizando a falta de comida. “Pensamos que com você vindo aqui hoje eles iam trazer alimento. Estamos sem nada aqui”, relata Zapata.

No entanto me alertam que mesmo com comida na mesa, os Warao ainda dizem que falta. “Eles sentem que sempre falta comida. Nós avaliamos com lideranças a quantidade de comida ideal, mas nunca é o suficiente. Hoje mandamos cestas separadas, mas antes era coletivo. Eles distribuíam e se organizavam. No entanto, começaram a querer mais um do outro e tivemos que separar. É um instinto de quem já passou muita fome”, relata Uélma. 

Diferente de outras pessoas que são atendidas pela Semas no município, os Warao recebem além das cestas, proteína animal -- como sardinhas e um frango inteiro. 

Na educação professores ficaram mais dispostos para receber esses alunos. “Tinha uma resistência anterior que foi mudada, porque não entendiam a cultura. Mais de mil professores passaram por capacitação e foi discutido diversas vezes em como integrar essas crianças e inseri-las da melhor forma no retorno as aulas”, explica a advogada.

Josy Oliveira é professora da rede pública. Ela foi informada pela secretaria de educação que receberia um aluno warao para dar aula remota. Mesmo sem nunca ter conhecido ele, Josy fez uma atividade lúdica para quebrar a barreira da língua. Mas a migração mais uma vez atrapalhou os planos. “Fiz blocos de atividades adaptadas, de coordenação motora para a criança e entreguei à gestora de educação que encaminhou a família. Como a criança não fala nossa língua, essa foi uma alternativa.” Contudo, mesmo ela sabendo que o aluno fez a atividade, nunca recebeu de volta. Não teve retorno. A única informação é a de que ele seria “trasnferido”. Ou seja, saiu da cidade. 

Nos cuidados à saúde não há uma periodicidade de acompanhamento. Só surge quando há “demanda”; ou seja, se um indígena estiver doente ou se sentir mal é avisado a secretaria que informa a UBS mais próxima e uma equipe (com médico, enfermeiros e assistente social) vai até eles. É buscado constantemente que uma equipe de apoio fique com eles, porém dificilmente é algo atendido.

Samara Nóbrega agrega que só com a pandemia amenizando, vão poder fazer ainda mais por eles e tentar inseri-los no município. “Ainda há muito que se fazer, mas fizemos o principal que foi criar um diálogo com eles, eles se abrirem com a gente… Essa é nossa maior conquista, ter criado esse laço e com a pandemia baixando, incluir eles na sociedade”

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