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Vale do Javari: conheça a região onde jornalista e indigenista desapareceram

Local é marcado por violência e conflitos frequentes da Amazônia

Cleber Souza 08/06/2022 • 15:49 - Atualizado em 08/06/2022 • 17:29

A terra indígena Vale do Javari, região onde estão desaparecidos Dom Phillips, jornalista britânico do The Guardian, e o indigenista brasileiro Bruno Araújo Pereira, tem histórico de violência e conflitos frequentes da Amazônia.  

Com uma área de 8,5 milhões de hectares demarcada, é considerada a segunda maior terra indígena do Brasil, atrás apenas do território Yanomami, com seus 9,4 milhões de hectares.  

O Vale do Javari faz fronteira com Peru e a Colômbia, e também é conhecida por ter a maior população de povos isolados do mundo.  

A região fica no extremo oeste do estado do Amazonas e lá vivem povos como Mayuruna/Matsés, Matis, Marubo, Kulina Pano, Kanamari, além dos pequenos grupos Korubo e Tsohom Dyapá — ambos de recente contato.

Segundo o relatório Cartografias das Violências da Região Amazônica, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Vale do Javari é hoje palco de disputas e é controlada por uma facção local chamada "os Crias", que é uma dissidência da Família do Norte (FDN), maior e mais conhecida.  

Desmatamento, garimpo ilegal e domínio de rotas do tráfico de drogas são algumas das atividades criminosas mais comuns realizadas por essas facções nessa área, segundo aponta o relatório divulgado em fevereiro deste ano.  

Além dos conflitos por problemas externos ao território, há também desentendimentos internos entre os povos indígenas, sobretudo envolvendo os isolados, por espaço de terra.  

Em setembro de 2019, época em que trabalhava no Vale do Javari, Maxciel Pereira dos Santos foi assassinado em Tabatinga, no Amazonas. Ele dirigia uma motocicleta quando foi baleado com dois tiros na cabeça. O crime ainda não foi solucionado.

Dados de 2020 do Centro de Trabalho Indigenista (CTI) estimam que o Vale do Javari é habitado por 26 povos com uma população de 6.317 habitantes.

O desaparecimento

Nesta quarta-feira (8), as buscas por Phillips e Bruno entraram no 4º dia e contam com o apoio da Marinha, do Exército, da Força Nacional e das forças de segurança do Amazonas.

A Justiça Federal do Amazonas determinou que a União envie imediatamente helicópteros, embarcações e equipes de buscas para tentar localizar.  

O servidor de carreira da Fundação Nacional do Índio (Funai) e o colaborador do Jornal The Guardian desapareceram no Vale do Javari. Eles foram vistos pela última vez na tarde do domingo (5), segundo nota divulgada pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

Bruno é indigenista especializado em povos indígenas isolados e conhecedor da região, onde foi coordenador regional por cinco anos. Já Dom Phillips é veterano de cobertura internacional e mora no Brasil há mais de 15 anos.

Segundo lideranças indígenas, o jornalista e o ativista estariam recebendo ameaças de garimpeiros que atuam de forma ilegal na região.

Até o momento, cinco pessoas foram ouvidas nas investigações. Apenas um suspeito foi detido na manhã desta quarta.  

Apelo das famílias

Após a notícia do desaparecimento, a família do jornalista implorou às autoridades brasileiras que se empenhem nas buscas.

"Imploramos às autoridades brasileiras que enviem a Força Nacional, a Polícia Federal e todos os poderes à sua disposição para encontrar nosso querido Dom", disse o cunhado do jornalista Dom Phillips, Paul Sherwood, em rede social. "Ele ama o Brasil e dedicou sua vida à cobertura da Floresta Amazônica", completou

A esposa do jornalista, Alessandra Sampaio, também fez um apelo às autoridades para haver esforço nas buscas.  

“A gente ainda tem um pouquinho de esperança de encontrar eles. Mesmo que eu não encontre o amor da minha vida vivo, eles têm que ser encontrados, por favor. Intensifiquem essas buscas. Estou fazendo esse apelo", disse ela.  

A irmã de Phillips que vive no Reino Unido, Sian Phillips, também cobrou as autoridades. "Cada minuto conta", disse.  

Uma carta aberta, divulgada pela família do indigenista Bruno Pereira, pediu prioridade e urgência. No texto, defende ainda que seja garantida segurança às equipes que trabalham no resgate.